PARIS — A França está reduzindo sua capacidade de produção de vinho enquanto amplia a entrada de alimentos estrangeiros. Ao fim da campanha deste ano, cerca de 54 mil hectares de vinhedos terão sido arrancados, com custo de 217 milhões de euros (R$ 1,29 bilhão) nos últimos dois anos, segundo o Ministério da Agricultura.
A medida busca diminuir a produção, melhorar a qualidade e permitir uma recuperação futura dos preços. Parte do vinho retirado do mercado será transformada em álcool em gel. O país perdeu um terço de sua área de vinhedos nos últimos 50 anos e abriga um décimo dos vinhedos do mundo.
As vendas externas de vinhos chegaram ao menor nível em mais de 15 anos. Em 2026, o setor também foi afetado pelas tarifas impostas por Donald Trump, pela desaceleração da demanda chinesa, pela redução do consumo de álcool e por condições climáticas que provocaram uma das menores safras dos últimos 50 anos.
Pressão sobre o comércio agrícola
O superávit agroalimentar francês ficou em 181 milhões de euros (R$ 1,07 bilhão) no ano passado, o menor resultado desde o fim dos anos 1970, conforme dados do governo. As importações avançaram com a alta dos preços do cacau e do café, enquanto as exportações tiveram crescimento limitado.
A comparação com a Itália evidencia a mudança no mercado. As exportações francesas aumentaram 2% no ano passado, ante alta de 5% nas exportações agroalimentares italianas. Produtos italianos mais baratos ganharam espaço, especialmente no setor de queijos.
No mercado de Rungis, nos arredores de Paris, cerca de 3 milhões de toneladas de frutos do mar, carnes, laticínios, frutas e legumes são comercializadas anualmente. O local atende 18 milhões de pessoas por dia, e 40% dos produtos vêm do exterior.
A Buisson, atacadista de queijos, pretende ocupar um espaço duas vezes maior para acomodar o aumento dos produtos italianos. A empresa vende muçarela de búfala, burrata e parmesão. Em maio, comercializou mais de cinco toneladas de queijos italianos por dia, contra pouco menos de duas toneladas seis anos atrás. Esses itens já respondem por cerca de 40% do faturamento da companhia, segundo o diretor-geral Philippe Ammiche.
Quase metade das importações de queijo, porém, vem da Alemanha, Holanda, Bélgica e Reino Unido. Esses países investiram em capacidade de processamento voltada à exportação. Um em cada dois frangos consumidos na França também é importado.
Resposta do governo
O governo de Emmanuel Macron declarou uma “guerra agrícola” e acelerou a aprovação de uma lei de emergência. Entre as medidas estão a prioridade para produtos franceses nas escolas e o afrouxamento de regras para instalações pecuárias, pesticidas e projetos de irrigação.
A ministra da Agricultura, Annie Genevard, anunciou um plano de ajuda superior a 1 bilhão de euros (R$ 5,95 bilhões) para agricultores afetados por ondas de calor e incêndios sucessivos neste verão, correspondente ao inverno no hemisfério sul.
A agricultura francesa também é pressionada por guerras comerciais, desaceleração econômica, doenças animais e pelo conflito com o Irã neste ano, que elevou os preços de fertilizantes e combustíveis. Cerca de 96,5 mil hectares já foram queimados no país, mais de duas vezes e meia a área total de 2025.
Para Sébastien Abis, pesquisador associado ao IRIS (Instituto de Relações Internacionais e Estratégicas), “O mundo inteiro acelerou, enquanto talvez tenhamos ficado um pouco parados”.
Menos propriedades e sucessão difícil
O número de propriedades agrícolas caiu 75% desde a década de 1970 e chegou a 390 mil. Segundo o Ministério da Agricultura, quase metade dos agricultores franceses terá se aposentado em apenas quatro anos.
O governo pretende facilitar a entrada de jovens no setor, simplificar a aquisição ou retomada de propriedades e ampliar o acesso a financiamento. Também planeja aumentar em 30% o número de estudantes de agricultura, em 30% o de engenheiros agrônomos e em 75% o de veterinários formados na França até 2030.
A sucessão familiar, entretanto, enfrenta incertezas. Eric Thirouin afirmou que seu filho passou a questionar se deveria assumir a propriedade de produção de trigo. “Estamos no centro da crise, porque estamos no período de colheita e precisamos enfrentar um calor extremo”, disse.
No início deste ano, agricultores levaram tratores a Paris e jogaram batatas em protesto contra o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. A França continua sendo a principal beneficiária dos subsídios agrícolas da União Europeia, com recebimento médio de cerca de 9 bilhões de euros (R$ 50,6 bilhões) por ano.


