SÃO PAULO — A participação de moradores do Vale do Ribeira ajudou pesquisadores a localizar 20 exemplares vivos da jiboia-do-Ribeira desde 2016. A espécie, considerada ameaçada de extinção, não tinha um indivíduo vivo encontrado desde sua descrição, em 1953, até a descoberta de Dona Crô, em uma área rural de Sete Barras, na comunidade Guapiruvu.
A localização ocorreu após ações de comunicação do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR). O aviso sobre uma cobra que poderia ser a espécie chegou a Bruno Rocha, biólogo e cofundador do projeto. Dona Crô recebeu esse nome por sugestão de um menino da região.
Registros e monitoramento
A jiboia-do-Ribeira, ou Corallus cropanii, é uma serpente não peçonhenta da família dos boídeos. De hábitos arborícolas, é endêmica da mata atlântica do Vale do Ribeira, área que reúne 22 municípios no sul do estado de São Paulo. Sua coloração combina ventre amarelo e escamas dorsais com padrões triangulares negros e marrons.
Entre 1953 e 2016, foram encontrados apenas seis outros exemplares, todos mortos, segundo Daniela Gennari, bióloga e técnica da Coleção de Herpetologia do Museu de Zoologia da USP. Os novos registros podem ajudar a esclarecer aspectos ainda pouco conhecidos, como a maturação sexual, o número de filhotes por gestação e os padrões de atividade da espécie.
Dona Crô foi monitorada por meio de um aparelho de radiofrequência instalado no corpo. O acompanhamento terminou quando a bateria do equipamento acabou. A expedição inicial e o rastreamento tiveram apoio de um projeto coordenado pela curadoria da Coleção de Herpetologia do MZUSP.
Outra fêmea, chamada Esperança, foi encontrada em Guapiruvu durante a pandemia de Covid-19. Depois, moradores localizaram o macho Ribeiro, a fêmea Juquiá, descrita como idosa, e um macho jovem ainda sem nome, acompanhado em uma área natural.
Educação ambiental
O trabalho do PJR também busca reduzir o medo da população. A jiboia-do-Ribeira pode ser confundida com a jararacuçu, espécie peçonhenta comum na região. Uma diferença está nas fossetas labiais, pequenas cavidades próximas à boca que existem na jiboia-do-Ribeira e não na jararacuçu.
A região concentra uma das maiores áreas remanescentes de mata atlântica no estado, mas enfrenta pressão da devastação e do aumento da atividade humana, principalmente pela agricultura e pela construção de rodovias. Como predadora de topo, a serpente é afetada por mudanças ambientais, e sua preservação contribui para a conservação de outras espécies, conforme o projeto.
O PJR passou a integrar o Instituto Conservação Brasil. A parceria busca ampliar a segurança jurídica e facilitar a obtenção de recursos. A organização pretende estender as ações aos municípios do Vale do Ribeira e transformar a jiboia-do-Ribeira em espécie símbolo da região.
A Fundação Florestal e a Divisão de Biodiversidade e Biotecnologia, ligadas à Secretaria do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística, informaram que desenvolvem ações de conservação da biodiversidade e dos habitats naturais no Vale do Ribeira, incluindo pesquisas e monitoramento de indivíduos em vida livre.
Para os próximos dez anos, Daniela Gennari aponta a obtenção de recursos como o principal desafio do projeto. Ela afirma que o financiamento tem sido escasso desde o início, mas destaca a mudança na relação das comunidades com a espécie.


