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Internacional

Nobel da Paz chega a 2026 com histórico de escolhas sob revisão

Trajetórias de vencedores mostram que o prestígio do Nobel pode coexistir com guerras, controvérsias e mudanças de reputação.

Nobel da Paz chega a 2026 com histórico de escolhas sob revisão
Foto: Reuters

O Nobel da Paz de 2026 será anunciado nesta sexta (9), em Oslo, pelo Comitê Norueguês do Nobel. A nova escolha se somará a uma lista formada, ao longo de mais de um século, por dissidentes, líderes políticos, ativistas e negociadores de acordos históricos.

A trajetória dos premiados, porém, nem sempre confirma a expectativa associada à láurea. Alguns ampliaram sua influência ou converteram o reconhecimento em avanço político. Outros passaram a ser relacionados, anos depois, a guerras, repressão ou decisões que colocaram em dúvida a escolha do comitê.

Vencedores recentes

Em 2025, María Corina Machado foi reconhecida por sua atuação contra o regime de Nicolás Maduro e pela defesa dos direitos democráticos na Venezuela. O comitê destacou sua busca por uma transição pacífica para a democracia. Na ocasião, a líder opositora vivia escondida havia meses, após a repressão que se seguiu à eleição presidencial de 2024.

A relação entre a premiada e Donald Trump acrescentou uma tensão à escolha. María Corina dedicou o prêmio ao presidente americano e apoiou operações militares dos Estados Unidos no Caribe. Em janeiro de 2026, depois que uma operação ordenada por Trump capturou Maduro e o retirou do poder, ela entregou a medalha ao presidente como forma de reconhecimento. O Instituto Nobel esclareceu que a honraria não podia ser transferida, compartilhada ou revogada. Nos meses seguintes, Washington priorizou o diálogo com Delcy Rodríguez, deixando María Corina fora do processo que esperava conduzir.

Narges Mohammadi recebeu o Nobel de 2023 pela luta contra a opressão das mulheres no Irã, pelos direitos humanos e pela liberdade. Presa em Teerã, não participou da cerimônia; seus filhos a representaram em Oslo. Quando anunciou a escolha, o Comitê Nobel informou que ela já havia sido detida 13 vezes, condenada em cinco processos e acumulava penas de 31 anos de prisão e 154 chibatadas.

Mohammadi também atuou contra a pena de morte e abusos no sistema prisional, além de apoiar o movimento conhecido pelo lema “Mulher, Vida, Liberdade”. Depois de deixar temporariamente a prisão por razões médicas, foi detida novamente em dezembro de 2025. Em fevereiro de 2026, recebeu nova pena de sete anos e meio de prisão. Em maio, a execução foi suspensa temporariamente sob fiança, e ela foi levada a um hospital.

Prêmios seguidos por guerras e impasses

Abiy Ahmed Ali ganhou o Nobel de 2019 principalmente por retomar o diálogo com a Eritreia e encerrar duas décadas de hostilidade. Ao chegar ao poder, em 2018, aceitou a decisão internacional sobre a fronteira entre os dois países e pôs fim ao estado de “nem guerra, nem paz” que se seguiu ao conflito de 1998 a 2000.

Em novembro de 2020, contudo, ordenou uma operação militar contra as forças da Frente de Libertação do Povo do Tigré, após uma escalada entre o governo federal e a liderança da região. O conflito terminou formalmente em 2022 e deixou cerca de 600 mil mortos, segundo estimativa citada por Olusegun Obasanjo. Investigações da ONU apontaram graves violações cometidas pelas diferentes partes. Forças da Eritreia participaram do conflito ao lado do governo etíope.

Em 2009, Barack Obama recebeu o Nobel menos de nove meses depois de chegar à Casa Branca. O comitê citou seus esforços pela diplomacia internacional, pela cooperação entre os povos e por um mundo sem armas nucleares. A premiação foi vista como uma aposta no que o novo presidente representava, e não apenas no que havia realizado.

A escolha foi questionada pela decisão anunciada nove dias antes da cerimônia de enviar mais 30 mil soldados americanos ao Afeganistão. Depois, a política de contraterrorismo de Obama adotou ataques seletivos com drones, estratégia que ele próprio reconheceu levantar dúvidas sobre mortes de civis, legalidade, transparência e efeitos políticos dos bombardeios.

Acordos de paz e reputações alteradas

Yasser Arafat, Yitzhak Rabin e Shimon Peres dividiram o Nobel de 1994 pelos Acordos de Oslo, que haviam criado um processo de reconhecimento e negociação entre Israel e a Organização para a Libertação da Palestina. A decisão recebeu oposição de um integrante do Comitê Nobel, que renunciou por discordar da premiação de Arafat e mencionar seu passado ligado à violência.

Pouco mais de um ano depois, Rabin foi assassinado por Yigal Amir, extremista judeu contrário às concessões territoriais previstas no processo. Peres assumiu o governo israelense, mas a continuidade da violência, as mudanças políticas e os impasses enfraqueceram o acordo.

Nelson Mandela e Frederik Willem de Klerk receberam juntos o prêmio de 1993 pelo trabalho para encerrar o apartheid e criar as bases de uma África do Sul democrática. Em 1994, o país realizou sua primeira eleição democrática multirracial, Mandela tornou-se presidente e De Klerk integrou o governo de unidade nacional.

A trajetória de De Klerk permaneceu marcada por sua participação no sistema do apartheid. Na Comissão da Verdade e Reconciliação, ele pediu desculpas pelo regime, mas negou que assassinatos de opositores tivessem sido política de seu governo.

Aung San Suu Kyi recebeu o Nobel em 1991 por sua luta não violenta pela democracia e pelos direitos humanos em Mianmar. Décadas depois, ao ocupar o centro do poder civil, a partir de 2016, foi criticada pelo silêncio e pela defesa de seu governo diante da perseguição aos rohingyas. Em 2019, liderou a delegação de Mianmar na Corte Internacional de Justiça em processo movido pela Gâmbia. Em 2021, os militares retomaram o poder e a prenderam.

Escolhas controversas desde os anos 1970

Mikhail Gorbachev recebeu o prêmio em 1990 por seu papel nas mudanças das relações entre o Ocidente e o Oriente. O comitê destacou a perestroika, a glasnost, a redução das tensões com os Estados Unidos e a decisão de não usar a força para preservar os regimes comunistas do leste europeu.

Documentos soviéticos divulgados posteriormente indicaram que o Nobel foi recebido com ceticismo e irritação em setores do Partido Comunista. Gorbachev não foi à cerimônia de dezembro de 1990 e só proferiu sua palestra em junho do ano seguinte. Em 25 de dezembro de 1991, renunciou à Presidência enquanto a União Soviética se desintegrava.

Em 1973, Henry Kissinger dividiu o Nobel com Le Duc Tho pelos Acordos de Paris, apresentados como caminho para encerrar a Guerra do Vietnã. Le Duc Tho recusou o prêmio porque ainda não havia paz no país. Dois integrantes do Comitê Nobel renunciaram, e Kissinger não foi a Oslo para receber a láurea.

Os combates continuaram, e a guerra terminou apenas em 1975. Nas décadas seguintes, a associação de Kissinger ao Nobel também foi questionada por sua atuação no Camboja e pelo apoio a regimes autoritários na América Latina, incluindo a ditadura de Augusto Pinochet no Chile.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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