A morte de Márcio Chaer, neste sábado (3/10), encerra a trajetória de um dos responsáveis por ampliar a cobertura jornalística dos temas do Judiciário. À frente da revista eletrônica Consultor Jurídico, ele criou espaço para colaboradores e tornou debates e decisões do Direito mais acessíveis.
Chaer é associado à tradição de Plínio Barreto (1882-1958), autor das Crônicas Forenses. Barreto transformava os grandes debates dos tribunais em crônicas; Chaer levou esse desafio para a expansão da rede mundial de computadores e fez da publicação jurídica uma referência para profissionais do Direito.
Sua atuação também foi marcada por posições firmes diante dos desmandos da lava jato. A revista passou, em determinado momento, a chamar a operação de finada lava jato. Nesse período, Chaer manteve um jornalismo combativo e comprometido com o interesse público, entendido como princípio central da informação.
Em 2011, ele recebeu um colaborador para criar uma coluna semanal que aproximasse o Direito e as humanidades. O título Embargos Culturais surgiu de uma sugestão de Chaer e de um colaborador próximo. A coluna passou a publicar resenhas de livros, filmes e outros trabalhos ligados a essa aproximação.
Chaer indicava obras, apontava filmes e sugeria caminhos. Ao longo de dezesseis anos, acompanhou o amadurecimento da coluna e de seu autor. Em um episódio lembrado no texto, um advogado procurou em uma livraria de Brasília justamente um livro comentado na publicação. A cena foi interpretada como sinal de que o espaço criado por Chaer alcançava leitores além de quem escrevia.
Um espaço para diferentes vozes
O sentido de mecenato atribuído a Chaer não se limitava ao apoio à cultura. Ele percebia vozes, oferecia espaço e confiava que encontrariam leitores. A ConJur reuniu magistrados, advogados, integrantes do Ministério Público, defensores, professores e estudantes, que puderam escrever, discordar, provocar e ser lidos.
Sua contribuição, nessa visão, não consistia em impor uma orientação ou proteger uma escola. Chaer construía uma praça pública para o debate jurídico. Muitas vezes, identificava em um colaborador uma possibilidade que o próprio autor ainda não havia percebido.
A referência ao mecenato remete a Caio Clínio Mecenas, conselheiro do imperador Otávio Augusto no século I a.C., associado ao apoio a Virgílio, Horácio e outros nomes da literatura romana. O termo também foi relacionado aos príncipes italianos da Idade Média, como Cosme de Médici.
Chaer fez jus ao substantivo ao abrir caminhos para que outros escrevessem e fossem conhecidos. Seu legado é apresentado não apenas pelo que produziu, mas também pelo trabalho que tornou possível. A janela aberta por ele permanece na trajetória dos autores e leitores que encontraram espaço na Consultor Jurídico.


