A primeira edição do fundo Acelere o Relógio da Igualdade selecionou 25 iniciativas em dez estados entre 319 inscrições. A Plan International Brasil abriu uma nova rodada do programa, com R$ 600 mil destinados a projetos de todo o país que enfrentem desigualdades de gênero.
As inscrições ficam abertas até 11 de novembro, na plataforma da organização. Há uma modalidade para meninas e jovens mulheres que pretendem desenvolver ações em escolas, bairros e associações; outra para coletivos, grêmios e movimentos sem necessidade de formalização; e uma terceira para organizações da sociedade civil.
Como será a seleção
As propostas podem abordar prevenção ao casamento infantil, educação para a igualdade e violência de gênero. Após a conferência dos documentos, as próprias candidatas analisarão projetos de outras participantes e não poderão votar nas próprias propostas. Os projetos com melhores avaliações receberão os recursos. Em caso de empate, será considerada a participação de grupos historicamente excluídos.
Flávio Debique, diretor de Programas e Advocacy da Plan Brasil, afirma que a inscrição deve ser feita pelas próprias jovens, com apoio de materiais e sessões explicativas. Para ele, a transformação de propostas em ações depende de orçamento: "Esse relógio só vai acelerar se a vontade e o desejo se transformarem também em orçamento".
A iniciativa considera a projeção do Global Gender Gap Report 2026, do Fórum Econômico Mundial, segundo a qual seriam necessários 120 anos para alcançar a paridade global entre mulheres e homens caso o ritmo histórico de progresso seja mantido.
Desigualdades apontadas
Dados reunidos pela organização mostram que o Censo de 2022 registrou 34,2 mil crianças e adolescentes de 10 a 14 anos em união conjugal. A maioria era formada por meninas, e 69% das garotas nessa situação eram pretas ou pardas.
O livro “Nem Cresci e Já Sou Mãe”, lançado em junho com apoio da Plan e escrito pela jornalista Joyce Ribeiro, reúne relatos de jovens que engravidaram antes dos 19 anos. Conforme dados do IBGE citados na obra, 7 em cada 10 mães adolescentes são negras, enquanto 6 em cada 10 não trabalham nem estudam. Uma pesquisa mencionada no livro indica que 60% das meninas deixam a escola depois de se tornarem mães, ante 25% dos meninos que se tornam pais.
Em levantamento online realizado pelo Instituto QualiBest em setembro de 2025 com 824 pessoas, 87% associaram violência sexual à violência contra meninas, e 43% disseram que essa é a forma mais comum no país.
Relatórios acompanhados pela Plan desde 2007, com meninas de nove países, entre eles o Brasil, também apontam que elas dedicam mais tempo às tarefas domésticas do que os meninos. Uma brasileira ouvida em 2024, Bianca, 17, relatou que o pai e o irmão não realizam essas atividades porque já “fazem outras coisas”.
Experiência apoiada pelo fundo
Entre as iniciativas escolhidas na primeira edição está o coletivo MãeDalas, de Belém. A fundadora, Marluce Araújo, criou um projeto para adolescentes do Quilombo do Abacatal, em Ananindeua (PA), onde identificava vulnerabilidade social e digital e dificuldades de acesso à educação e a políticas públicas.
Com os recursos, o coletivo promoveu três ciclos de oficinas sobre educação sexual e direitos das meninas. Na primeira atividade, em agosto de 2025, participantes de 10 a 18 anos desenharam um “relógio do tempo” para representar a distribuição do dia entre escola, tarefas domésticas, lazer e descanso. A dinâmica levou a discussões sobre a sobrecarga de cuidado e a desigualdade de gênero. Marluce disse que mães acompanharam as filhas e demonstraram satisfação com o apoio oferecido.


