A investigação sobre a morte da empresária Andréia Gaspar, de 51 anos, reúne documentos, depoimentos e registros relacionados às horas que se seguiram a uma cirurgia facial realizada em Goiânia. O inquérito tem mais de 1.300 páginas e também examina relatos de pacientes que dizem ter sofrido danos físicos e psicológicos após procedimentos com o otorrinolaringologista Lessandro Martins.
A Polícia Civil apura se o médico e o Hospital Ankar podem ser responsabilizados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar. O trabalho inclui a análise das etapas anteriores, do procedimento e do atendimento posterior, além da exumação do corpo, realizada no dia 28 de agosto com acompanhamento do Ministério Público e da polícia.
As horas após a cirurgia
Andréia morava na Espanha e chegou ao Brasil no dia 3 de agosto. As consultas anteriores ocorreram de forma remota, e ela não teve uma avaliação presencial com o médico antes de entrar no hospital. A cirurgia começou às 7h30 do dia 11 de agosto e durou sete horas.
Foram realizados seis procedimentos: rejuvenescimento facial, tratamento no pescoço, redução da testa, correção do queixo, cirurgia nas pálpebras e preenchimento facial com gordura retirada por lipoaspiração. O pacote custou R$ 118 mil.
Às 17h40, Andréia foi encaminhada diretamente para um quarto comum. O hospital não tinha leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). A direção afirmou que pacientes são transferidos para unidades de maior complexidade quando há indicação.
A família relata que a empresária apresentava sangramento e inchaço no rosto. Por volta das 20h30, ela passou a reclamar de dificuldade para respirar. A médica plantonista chegou ao quarto à 0h50 e declarou, em depoimento, que a paciente permanecia estável. Pouco depois das duas horas da manhã, Andréia sofreu uma parada cardiorrespiratória.
A irmã registrou o atendimento e afirmou que a equipe não conseguia contato com os médicos ligados ao cirurgião. Lessandro retornou ao hospital por volta de 2h20, quando Andréia já havia morrido.
Apuração sobre o hospital e o médico
O corpo foi levado ao Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), onde foi examinado por duas profissionais. Tâmara Mehri, uma das médicas, é sobrinha de Jorge Mehri, proprietário do hospital. A direção informou que ela se afastou do caso depois de identificar o parentesco.
O delegado responsável disse que a investigação precisa examinar os detalhes do ato cirúrgico para verificar se houve resultado culposo e eventual assunção de risco. A defesa de Lessandro nega negligência ou omissão e afirma que Andréia foi monitorada, com saturação e oxigenação consideradas adequadas.
O Hospital das Clínicas esclareceu que Lessandro atua como médico voluntário na instituição e que não existe o cargo de professor mencionado pelo profissional em suas plataformas digitais. O advogado Pedro Fonseca contestou a existência de inconsistência nessa apresentação.
Relatos de outras pacientes
Durante as investigações, nove mulheres das regiões Sudeste, Norte e Centro-Oeste afirmaram ter sofrido consequências de cirurgias realizadas pelo médico. Também foi ouvida uma ex-paciente que atualmente mora nos Estados Unidos.
Uma mulher que realizou três cirurgias disse que pretendia operar apenas o nariz, mas acabou submetida a outros procedimentos. Ela calcula ter gasto cerca de R$ 50 mil e afirma que ficou com deformações no rosto. Outra paciente, Angela, relatou intervenções no nariz, nas pálpebras, nas sobrancelhas e preenchimento facial. Segundo ela, uma técnica diferente da combinada foi utilizada.
Angela afirma que passou a sentir dor constante, coceira e rigidez no rosto. Ela diz ainda que procurou reumatologistas e realizou exames que não apontaram doença autoimune, hipótese que teria sido levantada pelo médico. A defesa afirma que as queixas devem ser analisadas individualmente.
O Conselho Regional de Medicina de Goiás informou que as denúncias contra Lessandro Martins são investigadas em sigilo. A família de Andréia busca esclarecimentos e responsabilização pelos fatos.


