Robert Montgomery transformou a própria trajetória como paciente cardíaco em uma frente de pesquisa sobre transplantes. Depois de sobreviver a sucessivas paradas cardíacas e receber um novo coração, o cirurgião passou a liderar estudos com órgãos de porcos geneticamente modificados em seres humanos.
Em 2010, durante uma trilha na Patagônia, Montgomery sofreu uma parada cardíaca. Um cardioversor-desfibrilador implantável aplicou um choque e restabeleceu seus batimentos. Ele já sabia que seu coração estava falhando e que precisaria de um transplante. A doença era a mesma que havia afetado seu pai e seu irmão: a cardiomiopatia dilatada, provavelmente relacionada a uma mutação genética.
Montgomery era cirurgião de transplantes e dirigia um centro da Johns Hopkins Medicine. Ao longo da carreira, ajudou a desenvolver técnicas para a retirada minimamente invasiva de rins de doadores vivos, criou um programa de troca entre pares incompatíveis e participou de iniciativas para ampliar o uso de órgãos de doadores com HIV.
O transplante e a pesquisa com porcos
Em 2017, ele sofreu outra parada cardíaca na Patagônia. John, seu filho, fez compressões torácicas durante o deslocamento até um hospital. Depois, Montgomery precisou reaprender a andar, falar e comer. Também teve novas paradas cardíacas em um teatro da Broadway e em uma conferência médica na Itália, em 2018.
Pouco antes do amanhecer de 20 de setembro, recebeu a informação de que havia um coração disponível. O órgão vinha de um doador morto por overdose de heroína e infectado com hepatite C. Após uma cirurgia de seis horas, Montgomery recebeu o transplante. Dois dias depois, já analisava casos no leito.
A experiência o levou a buscar alternativas para ampliar a oferta de órgãos. No segundo semestre de 2021, ele anunciou o primeiro transplante de um rim de porco geneticamente modificado para um ser humano. O órgão funcionou durante 54 horas, produzindo urina e eliminando resíduos, sem ser rejeitado.
Depois, equipes de Maryland, Boston e da própria equipe de Montgomery transplantaram rins e corações de porcos para um pequeno número de pacientes vivos em estado terminal. Eles morreram das doenças preexistentes em questão de meses, mas não apresentaram a rejeição imunológica devastadora que destrói um órgão.
No ano passado, a FDA autorizou ensaios clínicos com órgãos de porcos em pacientes muito doentes. Montgomery lidera dois desses estudos. Desde o próprio transplante, ele voltou a pescar salmão no Alasca com John, viajou à África e auxiliou cirurgiões renais na Ucrânia. Para proteger o novo coração, caminha 3,2 km até o trabalho todas as manhãs.

