Manifestantes levaram às ruas de Nova York uma crítica à possibilidade de influência estrangeira nas eleições brasileiras. Na madrugada desta terça-feira (22), imagens geradas artificialmente mostraram o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) entregando a faixa presidencial do Brasil ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
A iniciativa foi organizada pela Choose Democracy em parceria com ativistas brasileiros. As projeções ocorreram em diferentes pontos da cidade, entre eles a ponte do Brooklyn e a torre de ventilação do Holland Tunnel, horas antes do início da sessão de discursos da 81ª Assembleia Geral da ONU.
Debate sobre soberania
Os organizadores afirmaram que a ação pretende levar à imprensa internacional e aos participantes da Assembleia Geral da ONU a discussão sobre soberania política e interferência estrangeira no Brasil, às vésperas das eleições presidenciais. A organização contesta a possibilidade de autoridades de outros países participarem da definição do futuro político brasileiro.
Daniel Hunter, da Choose Democracy, disse que a democracia também envolve o direito da população de decidir os rumos do próprio país. Para ele, esse direito é ameaçado quando há interferência de uma potência estrangeira.
Em seu site oficial, a Choose Democracy informa que começou como uma organização voluntária depois de Trump sinalizar, meses antes das eleições de 2020, que poderia rejeitar resultados eleitorais desfavoráveis. O republicano perdeu aquele pleito para o democrata Joe Biden.
Declarações de Lula
A manifestação ocorre em sintonia com a campanha do presidente Lula (PT), que tenta a reeleição e tem defendido a não interferência estrangeira nos assuntos internos de outros países. Ele deve abordar o tema em seu discurso na 81ª Assembleia-Geral das Nações Unidas, nesta terça-feira (22).
Na semana passada, durante um ato em Ceilândia, região administrativa mais populosa do Distrito Federal, Lula afirmou que viajaria à ONU para conversar com Trump e pedir que ele não se envolvesse nas eleições brasileiras. O presidente também já defendeu o sistema eleitoral do país em outras ocasiões, inclusive em uma conversa telefônica com o republicano no fim de agosto.
Na segunda-feira (21), em entrevista ao programa de Christiane Amanpour, da CNN, Lula voltou a criticar os ataques americanos à soberania nacional. Disse que Trump tem legitimidade para governar os Estados Unidos, mas não outros países, e defendeu negociação, respeito e reciprocidade.
O presidente também tem criticado a imposição unilateral de barreiras tarifárias. A avaliação de analistas familiarizados com o tema é que Lula busca combinar a defesa da autonomia brasileira com a tentativa de evitar um confronto capaz de prejudicar a melhora das relações com Washington.
Pressão em Washington
Trump afirmou na última semana que mantém uma boa relação com o Brasil e disse ter ajudado a eleger líderes latino-americanos diante do avanço da direita na região, sem citar Lula.
O governo brasileiro também considera possível que a administração Trump anuncie novas medidas contra ministros do Supremo Tribunal Federal durante a passagem de Lula por Nova York. Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, e o empresário Paulo Figueiredo viajaram a Washington e participaram de reuniões com integrantes da Casa Branca e do Departamento de Estado.
Durante a viagem, os dois pressionaram pela retomada de sanções contra o ministro do STF Alexandre de Moraes e pela extensão das medidas aos ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes.


