A ausência de uma reunião bilateral formal entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump não impede uma eventual conversa entre os dois presidentes durante a Assembleia Geral da ONU. Até o momento, nenhum dos governos apresentou pedido oficial para um encontro, mas a disposição da agenda pode facilitar um contato informal nos corredores do evento.
Desde 1955, o Brasil abre o debate geral da ONU. Trump, como presidente do país anfitrião, falará logo depois. A sequência cria uma possibilidade semelhante à registrada no ano passado, quando os dois presidentes se encontraram durante a programação.
Soberania, democracia e guerras
A versão mais recente do discurso indica que Lula não deverá mencionar Trump nominalmente, ao menos não em tom de crítica. A fala deve destacar a soberania nacional, a defesa da democracia, o multilateralismo e mudanças na estrutura da ONU.
Também estão previstos temas como as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio e a situação em Gaza. O presidente deve abordar ainda o combate ao crime organizado, defendendo a cooperação internacional contra as facções e, ao mesmo tempo, a soberania brasileira nas políticas de segurança dentro do território nacional.
A relação com Washington ganhou sensibilidade depois que o governo Trump classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. No campo comercial, Lula deverá criticar a imposição unilateral de barreiras tarifárias, sem necessariamente transformar o discurso em um ataque direto ao governo americano.
Para Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, um confronto direto com Trump teria pouco benefício diplomático para o Brasil. A proximidade do primeiro turno, marcado para 4 de outubro, também faz com que a repercussão doméstica tenha peso na elaboração da fala. A eleição ocorrerá 12 dias depois do discurso na ONU.
“Eu esperaria uma defesa bastante clara da soberania e da democracia, mas não necessariamente com uma fala nominal contra Washington”, afirmou a especialista.
Possível contato nos bastidores
Um encontro informal poderia servir como sinal de que os canais de diálogo continuam abertos, mesmo sem produzir resultados imediatos. Segundo fontes no Planalto, se houver espaço para uma conversa mais longa, o governo brasileiro não vê impedimento para que ela ocorra.
A interlocução tradicional com o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, enfrenta obstáculos políticos, especialmente pela atuação de aliados de Jair Bolsonaro nos Estados Unidos. Como alternativa, o governo brasileiro tem recorrido a empresários com acesso direto a Trump. Entre os nomes que tiveram contato com o presidente americano estão Joesley Batista, da JBS, e André Esteves, do BTG Pactual. O governo não identifica publicamente quem participa desses contatos em seu nome.
Lula já havia dito, durante a campanha, que gostaria de conversar com Trump em Nova York e pedir que ele não interferisse nas eleições brasileiras. A avaliação de Andreza Aruska é que uma relação pessoal funcional com o presidente americano pode coexistir com a apresentação de limites claros ao eleitorado brasileiro.
Pressão sobre ministros do Supremo
Outro ponto de incerteza é a possibilidade de novas medidas do governo Trump contra ministros do Supremo Tribunal Federal durante a passagem de Lula por Nova York. A 17 dias da eleição presidencial, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo estiveram em Washington para reuniões com integrantes da Casa Branca e do Departamento de Estado.
A dupla pressionou pela retomada de sanções contra Alexandre de Moraes e pela extensão das medidas a Flávio Dino e Gilmar Mendes. Em julho do ano passado, Moraes foi alvo de sanções financeiras dos Estados Unidos com base na Lei Global Magnitsky. Seus familiares e outros integrantes do STF também tiveram os vistos suspensos.
Em 2025, servidores públicos federais envolvidos na implementação do programa Mais Médicos, criado em 2013, foram atingidos pela revogação de vistos. Depois, Alexandre Padilha e Ricardo Lewandowski também tiveram os vistos suspensos. O episódio afetou a passagem de Lula por Nova York na sessão anterior da Assembleia Geral.
O governo brasileiro avalia como responder caso Washington anuncie novas punições durante a visita. Para Andreza Aruska, uma ofensiva contra autoridades brasileiras poderia reforçar o discurso de soberania de Lula, mas também recolocar em debate temas desfavoráveis ao governo, como segurança pública e crime organizado.
Negociação comercial
A discussão sobre tarifas continuará nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, durante uma reunião de ministros da área de comércio e indústria do G20 em Milwaukee, no estado americano de Wisconsin.
Márcio Elias Rosa, ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, deverá se reunir com Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos. O chanceler Mauro Vieira também deve participar da viagem. Será o primeiro encontro presencial entre os responsáveis pelas negociações desde a retomada formal das conversas.
As equipes técnicas dos dois países trocam documentos, mas Elias Rosa afirmou que ainda não há um esboço de acordo. O governo brasileiro não espera uma reversão ampla das tarifas nessa rodada. A expectativa é ampliar a lista de produtos brasileiros livres das sobretaxas.
Mesmo um avanço limitado seria interpretado internamente como sinal de que a estratégia de manter o diálogo com Trump começa a produzir resultados.


