A possibilidade de influência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras passou a ser acompanhada por instituições da sociedade civil e pessoas próximas ao presidente Lula. Ainda não há um diagnóstico sobre até onde o governo Donald Trump poderia avançar, mas o tema já se tornou um dos eixos da discussão sobre soberania nacional.
Uma pesquisa divulgada em junho pelo Pew Research Center mostrou que 64% dos brasileiros não confiam que Trump vá fazer a coisa certa em assuntos globais. Outros 30% afirmaram confiar no presidente americano. Levantamento Datafolha divulgado em agosto apontou que metade dos brasileiros vê possibilidade de interferência estrangeira nas eleições; 32% consideram isso um problema, enquanto 18% dizem o contrário.
Medidas americanas e articulação de aliados
Em outubro do ano passado, durante negociações posteriores ao primeiro tarifaço de 50% contra o Brasil, o governo Trump exigiu que o país permitisse a participação de “dissidentes políticos” nas eleições presidenciais de 2026. A crise no Supremo Tribunal Federal também passou a ser usada como argumento para uma possível retomada de sanções contra autoridades brasileiras.
O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, que está nos Estados Unidos, trabalha por essa agenda. Na última semana, afirmou em Washington que se reuniu com autoridades americanas de alto escalão e relatou ter identificado, entre ministros do Supremo, uma tentativa de criar justificativas para contestar eventual vitória de seu irmão, Flávio Bolsonaro.
Na última terça-feira (15), o governo Trump afirmou, em relatório enviado ao Congresso americano, que o Brasil “falhou em confrontar” o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho. Os dois grupos foram classificados em maio pelos Estados Unidos como organizações terroristas, apesar da contrariedade do governo Lula.
A classificação ocorreu dois dias depois de uma visita de Flávio Bolsonaro a Trump e a integrantes do gabinete americano, entre eles Marco Rubio e J.D. Vance. O senador disse ter pedido a adoção da medida e depois a utilizou politicamente. Em outubro do ano passado, havia sugerido, no X, que os Estados Unidos atacassem embarcações com drogas no Rio de Janeiro.
Para o professor Guilherme Casarões, da Florida International University e coordenador do Observatório da Extrema Direita, as decisões americanas passaram a se relacionar com a campanha de Flávio. “Eu trataria a interferência a partir de uma gradação”, afirmou, ao diferenciar influência política de ações diretas ou indiretas sobre o processo eleitoral.
Operação política transnacional
A atuação de pessoas ligadas ao ecossistema trumpista também aparece em outros países da América Latina. O consultor político argentino Fernando Cerimedo foi preso na Bolívia, em agosto, acusado de ordenar o assassinato da ex-companheira grávida, Nadia Beller. Ele nega o crime. Após uma batida em um endereço associado a Cerimedo nos arredores de La Paz, investigadores disseram ter encontrado uma estrutura de robôs e mais de US$ 40 mil (R$ 206 mil) em espécie.
Amigo de Eduardo Bolsonaro, Cerimedo foi citado no inquérito sobre a tentativa de golpe de Estado no Brasil por disseminar informações falsas sobre as urnas eletrônicas. Também atuou na eleição do presidente argentino Javier Milei. Ele é parceiro de negócios de Brad Parscale, que coordenou a campanha de Trump em 2020.
Cerimedo e Parscale trabalharam nas candidaturas de Rodrigo Paz, na Bolívia, e Nasry “Tito” Asfura, em Honduras. Antes das eleições de novembro de 2025, Trump declarou apoio a Asfura. Cerimedo afirmou ter recebido cerca de US$ 1 milhão (R$ 5 milhões de reais) por mês nos últimos dois anos por atividades de consultoria política fora da Bolívia.
Nadia Beller disse acreditar que Parscale tenha disponibilizado tecnologia para campanhas latino-americanas. Sem apresentar evidências, afirmou também que Cerimedo teria relatado trabalhos para a CIA. Segundo ela, o argentino declarou que atuaria pela eleição de Flávio, trabalhou em favor de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022 e se encontrou com Eduardo no início de agosto, nos Estados Unidos.
Apoio externo e reação eleitoral
A influência de Trump produziu resultados diferentes em outros países. Na Hungria, o apoio ao ex-primeiro-ministro Viktor Orbán não teria alterado o resultado, enquanto no Canadá ameaças econômicas e territoriais foram interpretadas por analistas como fator que contribuiu para a manutenção dos progressistas no poder. Na Argentina, um acordo de swap cambial de até US$ 20 bilhões (R$ 102 bi) foi anunciado antes das eleições legislativas do ano passado, em meio à pressão sobre o peso.
Na Colômbia, aliados de Gustavo Petro e de Iván Cepeda atribuíram parte do resultado ao apoio de Trump a Abelardo de la Espriella e à hostilidade contra Petro. Sergio Guzmán, diretor da consultoria Colombia Risk Analysis, afirmou que o apoio americano poderia ser discutido como elemento de uma disputa apertada, mas não teria sido decisivo.
No Brasil, um relatório da Agência Brasileira de Inteligência sobre “ameaças ao processo eleitoral de 2026” elevou a influência e a interferência externa dos Estados Unidos ao “nível de criticidade”. Em um comício de Flávio Bolsonaro no mais recente 7 de Setembro, na avenida Paulista, apoiadores exibiram um boneco inflável de Trump segurando uma representação de Lula com roupa de presidiário. Abaixo, havia a frase, em inglês, “Trump, liberte o Brasil”.
Também circularam em páginas bolsonaristas vídeos e animações produzidos com inteligência artificial que simulavam a prisão de Lula por Trump. Entre os grupos que acompanham o tema, existe a avaliação de que uma intervenção explícita poderia acabar prejudicando Flávio diante do eleitorado.
Casarões afirmou que a campanha do senador tentou sustentar por meses a ideia de que somente ele teria capacidade de dialogar com a Casa Branca. Para o professor, o apoio americano pode dar ao candidato uma aparência de chefe de Estado, mas não necessariamente favorece sua candidatura.
No início de setembro, Trump disse que os Estados Unidos mantêm boa relação com o Brasil e já chamou Lula de “muito dinâmico”. As declarações contrastam com tarifas, sanções e outras medidas adotadas pelo governo americano. Em avaliação de Casarões, há uma motivação política clara nas ações de Trump desde julho do ano passado, mas não é possível afirmar se todas fazem parte de uma tentativa deliberada e direta de interferir na eleição brasileira.


