SÃO PAULO — Partidos de centro e direita concentram 20 das 107 candidaturas de pessoas trans registradas para as eleições de 2026, conforme levantamento baseado nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). A maioria das candidaturas está em legendas de esquerda.
A declaração de identidade de gênero não é obrigatória no registro eleitoral. Por isso, o número de candidatos trans pode ser maior que o identificado pelo tribunal. A campanha de Sophia Barclay, candidata a deputada federal pelo PL de São Paulo, por exemplo, não informou essa identidade ao TSE. Nas redes sociais, ela se apresenta como “trans de direita antiwoke”.
Barclay afirmou que a ausência da informação não foi uma decisão deliberada e disse que sua identidade não é mantida em segredo.
Distribuição entre os partidos
Entre os candidatos que declararam a identidade de gênero, o PSOL lidera, com 39 nomes. O PT tem 16 candidaturas trans, e o PDT, 15. Nos partidos classificados como de centro ou direita, o PSDB reúne seis candidatos; o MDB, quatro; Avante, Solidariedade e PP têm dois cada. Cidadania, União Brasil, PRD e Democrata aparecem com uma candidatura cada.
A classificação ideológica foi feita a partir do GPS Partidário, análise que posiciona as siglas da esquerda à direita com base na atuação prática da política, e não apenas na definição apresentada por cada legenda.
Para Giulia Gouveia, pesquisadora do Laboratório de Partidos, Eleições e Política Comparada da UFRRJ, a presença de pessoas trans em partidos de direita não representa necessariamente uma contradição. “Partidos políticos não são atores homogêneos”, afirmou. Segundo ela, as legendas reúnem grupos, lideranças, correntes e candidatos com posições diferentes sobre determinados temas.
Gouveia também destacou que a identidade de um candidato não permite presumir suas posições políticas. Uma pessoa trans, disse, não necessariamente coloca a pauta trans entre suas prioridades, assim como ser mulher não implica defender pautas relacionadas às mulheres.
Candidatas em partidos de centro e direita
Leo Krét do Brasil disputa uma vaga na Câmara dos Deputados pelo União Brasil. Baiana, ela foi eleita em 2008 como a primeira vereadora trans de Salvador, pelo PR, partido que deixou de existir em 2019 e deu origem ao PL. Krét afirma que se identifica com o centro e que o União Brasil a apoiou desde sua primeira eleição.
A candidata, que ficou conhecida como dançarina do grupo de pagode baiano Saiddy Bamba, apresenta na campanha propostas voltadas a projetos sociais de esporte, saúde e defesa dos direitos LGBTQIA+.
Gilvan Masferrer concorre a deputada federal pelo PSDB de Minas Gerais. Em sua terceira eleição, ela foi vereadora pelo DC em Uberlândia, em 2020. Nas eleições de 2024, disputou uma vaga na Câmara Municipal pelo PSB, mas não foi eleita. Masferrer afirma que faltaram recursos do partido para aquela campanha e diz estar satisfeita no PSDB.
Cargos e distribuição regional
As candidaturas trans estão concentradas nas disputas legislativas: 53 candidatos concorrem a deputado estadual e 50, a deputado federal. Há ainda dois candidatos a deputado distrital e duas candidaturas a vice-governador.
Leo Balbi, homem trans filiado ao PSOL, é candidato a vice-governador do Amazonas na chapa de Isael Munduruku, da Rede. Pedagogo, ele destaca a defesa da educação pública. No Pará, Seu Alex concorre ao mesmo cargo pelo PSTU, na chapa de Well Macêdo. Operário da construção civil e dirigente sindical em Belém, ele disputa novamente a vice-governadoria; em 2018, integrou a chapa de Cleber Rebelo, do mesmo partido.
São Paulo lidera entre os estados em número de candidatos trans, com 12, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 10. Ceará e Minas Gerais aparecem empatados, com nove cada.
Esta é a segunda eleição em que o TSE divulga dados sobre a identidade de gênero dos candidatos. O tribunal começou a coletar a informação nas eleições municipais de 2024. Em levantamento próprio, a Antra contabilizou 116 candidaturas trans em 2026, considerando registros eleitorais e outras fontes.


