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Saúde

Pesquisa mostra barreiras ao acesso à cannabis medicinal nas favelas do Rio

Estudo da PUC-Rio identifica obstáculos territoriais, econômicos, institucionais e históricos enfrentados por famílias de baixa renda.

Pesquisa mostra barreiras ao acesso à cannabis medicinal nas favelas do Rio
Foto: Ekkapon/Adobe Stock

O acesso à cannabis medicinal nas favelas da região metropolitana do Rio de Janeiro é afetado por estigma, insegurança, falta de informação e dificuldades para obter prescrição médica. A conclusão faz parte de uma pesquisa do Núcleo de Estudos em Saúde e Gênero da PUC-Rio, que analisou como as desigualdades sociais interferem no tratamento de crianças com condições neurológicas e outros quadros.

O estudo ouviu 20 mães de crianças atípicas que vivem em diferentes localidades da região metropolitana, incluindo favelas da Baixada Fluminense e das zonas Norte, Sul e Sudoeste da cidade. As entrevistadas estavam ligadas ao Núcleo de Estimulação Estrela de Maria (NEEM), criado em 2020 para mediar o acesso à cannabis medicinal e desenvolver estratégias locais em comunidades de baixa renda.

O NEEM atende 170 favelas e alcança aproximadamente 400 famílias. Segundo a pesquisa, o trabalho começa antes do tratamento, com a busca por diagnóstico, orientação e profissionais dispostos a acompanhar o uso da substância.

Estigma e insegurança nos territórios

O CBD, ou canabidiol, é uma substância presente na cannabis e usado no tratamento de epilepsias refratárias e outras condições neurológicas graves. O documentário “O outro mundo de Sofia”, exibido em 2023, contou a trajetória de uma família que buscava acesso ao tratamento e contribuiu para ampliar o debate sobre o uso medicinal da planta no Brasil.

A pesquisa ressalta, porém, que famílias moradoras de favelas enfrentam um percurso diferente. A coordenadora do NEEM chegou ao trabalho após vivenciar a dificuldade de obter o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista da filha, Maria. Depois do diagnóstico, passou a buscar alternativas aos tratamentos convencionais e formas de ampliar o acesso de outras famílias.

Entre os obstáculos estão a dificuldade de encontrar um médico prescritor e a associação histórica entre maconha, tráfico de drogas e criminalidade. O preconceito também pode partir dos próprios moradores. Ao mesmo tempo, o aumento da divulgação sobre os efeitos terapêuticos da cannabis levou mais mães ao NEEM, especialmente diante da ineficácia de tratamentos convencionais.

A presença de grupos armados, como o Comando Vermelho, o Terceiro Comando Puro e grupos de milícias, acrescenta insegurança à rotina. A circulação das famílias pode ser limitada por formas de controle e vigilância, enquanto o cuidado exige negociações com diferentes atores presentes nos territórios.

Há ainda o receio de que, durante uma operação policial, responsáveis sejam confundidos com traficantes e presos. A falta de informação sobre direitos e caminhos legais, como o uso mediante prescrição médica, também dificulta a busca pelo tratamento.

Barreiras no atendimento de saúde

De acordo com o levantamento, muitas crianças chegam ao NEEM depois de passar pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em diversos casos, os médicos não indicam a cannabis, embora as mães desejem tentar a terapia. Parte dos profissionais afirma não haver embasamento científico suficiente sobre o uso medicinal da substância e reluta em prescrevê-la, mesmo diante dos relatos dos responsáveis sobre melhora dos sintomas.

Com isso, algumas famílias recorrem a médicos credenciados pelo NEEM, mas escondem essa informação dos profissionais do SUS. O objetivo é evitar a perda de laudos ou a interrupção do acompanhamento de saúde.

A ausência de regulamentação clara e de políticas públicas efetivas contribui para a insegurança jurídica e dificulta a ampliação do acesso. Decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) ampliaram o reconhecimento do direito ao uso medicinal, mas algumas famílias ainda recorrem ao habeas corpus para cultivar cannabis em casa com finalidade terapêutica.

Criminalização e desigualdade

A pesquisa relaciona as dificuldades atuais à história da cannabis no Brasil. A planta circulava como mercadoria e prática social desde o século XVIII, em um contexto marcado pela escravidão e por hierarquias raciais. No século XIX, discursos médicos, higienistas e eugenistas passaram a associar determinados usos da cannabis à desordem, à degeneração moral e ao perigo social.

As escolas de medicina ajudaram a conferir legitimidade científica à repressão e reforçaram a associação entre maconha, população negra e classes populares. Mais tarde, tratados e convenções internacionais orientaram políticas antidrogas e consolidaram o modelo proibicionista.

Para o estudo, a regulamentação da cannabis para fins terapêuticos não elimina automaticamente as desigualdades formadas durante a criminalização da maconha. O acesso continua condicionado por fatores econômicos, regulatórios, territoriais e históricos.

Os resultados integram a pesquisa de mestrado “As determinações sociais da saúde e o acesso à cannabis medicinal nas favelas do Rio de Janeiro”, realizada no Programa de Pós-Graduação em Serviço Social da PUC-Rio. O desafio identificado não é apenas reconhecer a cannabis medicinal como possibilidade terapêutica, mas permitir que esse direito seja exercido também por famílias que enfrentam maiores obstáculos para chegar ao tratamento.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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