A reação do corpo e das emoções pode ajudar a identificar uma situação de violência sexual. Angústia, ansiedade ou medo durante ou depois da relação indicam que algo pode estar errado, afirma Julyelle Conceição, psicóloga e sexóloga do Não Era Amor, empresa especializada em saúde mental feminina e em apoio a mulheres em relacionamentos abusivos.
O consentimento pode ser verbal ou não verbal, mas precisa existir e pode ser retirado depois de um acordo inicial. Para Conceição, tudo o que acontece depois de um “não” é abuso sexual, mesmo que não haja marcas físicas. A violência também viola direitos sexuais ligados à integridade física e mental, independentemente do tipo de relacionamento.
Acordos antes da prática
Laura Muller, especialista em educação sexual, afirma que uma relação intensa pode incluir movimentos bruscos quando as duas pessoas estão confortáveis e os limites são respeitados. Já a violência ocorre quando alguém é ferido física ou emocionalmente.
A especialista diferencia esse comportamento do BDSM, sigla para bondage, disciplina, sadismo e masoquismo. A prática pode envolver dor, amarrações e dominação, mas depende de consentimento e de limites previamente estabelecidos. Palavras de segurança podem indicar quando a atividade deve ser interrompida.
Qualquer fantasia precisa ser conversada. A pessoa convidada a participar tem o direito de aceitar ou recusar, e a decisão deve ser respeitada. “Sexo é para ser um prazer, não uma obrigação”, afirma Muller.
Gisele, nome fictício de uma publicitária de 32 anos, relata que o parceiro começou a enforcá-la sem perguntar. O episódio provocou nela um princípio de síndrome do pânico, e ele respondeu que ela deveria “abrir mais a cabeça para essas coisas”.
Relatos e referências culturais
Catarina, nome fictício de uma professora de 40 anos, conta que já recebeu tapas, mordidas e puxões de cabelo durante uma relação. Ela diz ter sentido como se estivesse em uma briga. Embora hoje consiga pedir para parar, afirma que muitos homens a ignoram.
Para Julyelle Conceição, imagens sobre sexo podem reforçar a ideia de que agressividade é sinônimo de desempenho. Filmes, séries e pornografia podem servir de inspiração para fantasias, mas são produções de ficção, pondera Muller. Nos anos 2000, Cindy Gallop criou o Make Love Not Porn, inicialmente com vídeos de casais sem encenação e depois ampliado para uma plataforma de educação sexual.
A violência também aparece em relações entre homens. David J. Amado, coreógrafo e escritor jamaicano de 38 anos, relata ter sido asfixiado, agredido e atingido por cuspes sem autorização. Uma dessas relações terminou em abuso sexual, em 2021.
Para Amado, aceitar uma prática não significa aceitar todas, e concordar uma vez não vale para todas as ocasiões. A violência, diz ele, está relacionada ao poder e à transformação do parceiro em objeto de prazer.


