Roberto Calasso revisita o Antigo Testamento em O Livro de Todos os Livros, obra que combina conhecimento das tradições bíblicas com atenção às lacunas, aos enigmas e aos elementos que permanecem estranhos ao leitor moderno. O autor também faz referências ao Novo Testamento ao longo do percurso.
Calasso domina a Bíblia hebraica e suas principais traduções pré-modernas, entre elas a versão grega conhecida como Septuaginta e a tradução latina chamada Vulgata. Também recorre às interpretações produzidas por rabinos da Antiguidade, pela Cabala e pelos primeiros séculos do cristianismo.
Uma leitura sem linearidade
A proposta não é apresentar uma paráfrase comentada da Bíblia hebraica. O livro começa antes da criação do Cosmos, com base em tradições rabínicas, passa pelos reinados de Saul, Davi e Salomão e alcança quase o fim da monarquia israelita antes de retornar a Abraão, o primeiro patriarca.
Essa organização se relaciona à ideia, presente na tradição judaica, de que qualquer versículo pode ser colocado ao lado de outro e interpretado em conjunto com ele. A narrativa sobre a ascensão, a corrupção, a queda e a restauração do povo judeu passa a conviver com uma noção de tempo permanente.
As lacunas das Escrituras ocupam lugar central nessa leitura. Entre as perguntas retomadas por Calasso estão as razões pelas quais Deus aceitou as oferendas de Abel, mas rejeitou as de Caim, e o que Isaac teria pensado quando Abraão se preparou para sacrificá-lo por ordem divina. O texto hebraico não oferece respostas detalhadas para esses episódios.
As tentativas de explicar racionalmente essas passagens, ao longo dos milênios, aparecem como formas de transformar narrativas misteriosas em sistemas teológicos e dogmáticos. Para Calasso, porém, essas interpretações também podem evidenciar o quanto o texto original permanece inescrutável e distante de julgamentos morais simples.
O escritor retoma ainda o significado da eleição divina e o sistema de sacrifícios de animais no Templo de Jerusalém, posteriormente reinterpretado pela visão cristã sobre a crucificação de Jesus. As digressões incluem as páginas sobre Moisés, nas quais Sigmund Freud ganha destaque.
Freud dedicou o último ano de sua vida a um estudo sobre Moisés. Embora suas conclusões específicas sobre o chamado “verdadeiro” profeta não sejam mais levadas a sério, as ideias do psicanalista continuam, na leitura de Calasso, capazes de iluminar aspectos da trajetória judaica. O entusiasmo do ensaísta pela Vulgata também pode levar o leitor a considerar a leitura da Bíblia em latim.


