A hostilização do ator João Victor Gonçalves, filmada e transmitida por um streamer durante o caminho para o Rock in Rio, desencadeou uma disputa nas redes sociais. O caso passou a envolver acusações de homofobia e, depois, de racismo. Para Jean Wyllys, o episódio expõe como conflitos entre grupos podem ser convertidos em atenção e valor econômico pelas plataformas digitais.
O autor rejeita a ideia de reduzir a controvérsia a uma escolha entre negros e pessoas LGBTQIA+. A questão central, em sua análise, é identificar quem se beneficia financeiramente quando esses grupos são colocados em oposição em uma arena algorítmica.
As big techs, afirma Wyllys, operam um modelo de negócio baseado na atenção produzida pelo conflito. Para esse mecanismo, solidariedade, amor, ódio, indignação e preconceito podem gerar valor quando levam o usuário a parar, reagir e permanecer conectado.
A lógica do engajamento transforma identidades coletivas, que seriam múltiplas e atravessadas por diferenças internas, em identidades organizadas como tribos. A plataforma não precisa distinguir se a pessoa se manifesta como negra ou LGBTQIA+; basta que reconheça o que provoca reação e prolonga a conexão.
Nesse processo, os participantes podem acreditar que estão envolvidos em uma disputa política ou moral. Para a plataforma, porém, suas ações — da agressão à denúncia, do comentário ao compartilhamento — podem ser tratadas como eventos capazes de capturar atenção. A identidade é endurecida quando grupos são apresentados como categorias homogêneas e, ao mesmo tempo, dissolvida pela recombinação algorítmica orientada pelo engajamento.
A disputa pela atenção
Wyllys identifica cinco movimentos nesse processo. A extrema-direita passou a usar a guerra cultural como tecnologia política; os conflitos alcançaram a vida cotidiana; preconceitos como racismo, homofobia, misoginia e xenofobia podem ser reativados nas redes; e o algoritmo, mesmo sem ideologia própria, produz efeitos ideológicos ao priorizar atenção e engajamento.
O autor também relaciona essa dinâmica às ideias de Williams sobre uma infraestrutura industrializada de persuasão. A competição pela atenção pode interferir na capacidade individual de se concentrar no que é considerado importante e afetar a possibilidade de a sociedade definir objetivos comuns e deliberar politicamente.
Ódio, indignação, humilhação, medo e ressentimento são apresentados como formas de atenção. O algoritmo não precisa diferenciar moralmente solidariedade e ódio para transformá-los em engajamento.
A guerra cultural, nessa perspectiva, não ocorre somente nas redes sociais, mas também sobre a atenção. O poder das plataformas não depende necessariamente de controlar o que as pessoas pensam; pode estar na disputa sobre aquilo para o qual conseguem olhar. Wyllys aproxima essa dinâmica da ideia de “subjetividade de seita”, associada à formação de sujeitos orientados por reação, identificação, conflito e pertencimento tribal.
Jean Wyllys é jornalista, escritor e artista visual. Também é candidato a deputado federal pelo PT de São Paulo.


