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Cultura

Herbert Daniel e a transformação da dor em ação política

A experiência de Herbert Daniel mostra como o testemunho sobre aids, sexualidade e clandestinidade pode ultrapassar o âmbito individual.

A trajetória de Herbert Daniel ajuda a observar como relatos de dor podem se tornar instrumentos de ação política. Guerrilheiro ligado à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e à Ação Libertadora Nacional (ALN), ele participou de ações para negociar a libertação de presos políticos durante a ditadura militar, foi exilado e voltou ao Brasil em 1981.

Depois do retorno, Daniel passou a se apresentar publicamente como gay. A mudança o afastou do silêncio sobre a própria sexualidade e abriu uma elaboração política que articulava trabalho, economia, corpo, sexualidade, raça, gênero e ecologia. Para ele, a democracia não deveria terminar na porta da fábrica nem permanecer distante da vida íntima.

Em 1989, Daniel descobriu que estava infectado com o hiv. O diagnóstico levou para o espaço público uma dimensão antes mantida no âmbito privado: o guerrilheiro passou a narrar a própria história como homem gay e soropositivo. James Green afirma que Daniel decidiu assumir sua condição de modo semelhante a ativistas gays e lésbicas que escolheram afirmar a própria sexualidade.

O testemunho como prática coletiva

A exposição da experiência não aparecia, nesse caso, como simples relato biográfico. Daniel convocava outras pessoas a falar de suas situações, formar grupos de autoajuda e participar da vida social. Sua posição transformava a vergonha em possibilidade de organização, resistência e formulação de políticas públicas, em um contexto no qual a epidemia de hiv/aids produzia estigma e exigia novas formas de testemunho.

A dor mencionada nesse processo não era apenas física. Ela também envolvia a estigmatização e podia assumir a forma de testemunho, confissão ou narrativa autoteórica. Na década de 1980, a vida de Daniel expressou a passagem de uma militância marxista e revolucionária para uma dissidência insurgente, na qual a experiência pessoal adquiria valor político.

Esse movimento se relaciona a uma transformação mais ampla na maneira de narrar o sofrimento. Colette Soler afirma que vivemos na era dos traumatismos. Catherine Liu observa que as narrativas de sofrimento podem eclipsar lutas coletivas ao concentrar a atenção em uma dor e em uma cura individuais. A esquerda e a direita também mobilizam a linguagem da ferida: a primeira em torno das chamadas feridas coloniais; a segunda ao apresentar como direitos feridos a perda de privilégios.

Entre a exposição individual e a luta

A crítica às narrativas públicas da dor sustenta que a centralidade do indivíduo pode afastar a política das condições materiais e da organização coletiva. Nessa leitura, o sofrimento convertido em narrativa produziria reconhecimento e capital moral, mas não necessariamente redistribuição de renda ou justiça social. A biografia poderia ser transformada em objeto de consumo, reforçando a desvinculação produzida pelo capitalismo.

A experiência de Daniel oferece uma objeção a essa despolitização. No contexto latino-americano marcado pelas ditaduras, o testemunho em primeira pessoa não é apenas gênero literário ou afirmação de identidade. Ele pode funcionar como instrumento de luta coletiva e prova jurídico-política. O eu particular participa, assim, da construção de um sujeito político.

A partir do início da década de 1980, com o fim da ditadura militar e o começo da epidemia de hiv/aids, esse sujeito passa a ser associado à transgressão da norma e à expansão dos modos de vida. A narrativa de si deixa de recuperar somente uma memória política e passa também a questionar os limites impostos aos corpos e às formas de existência.

Uma política das experiências traumáticas

As políticas da dor podem ser definidas como as formas pelas quais uma experiência de sofrimento sai do silêncio, é narrada em primeira pessoa, reconhecida publicamente e convertida, ou não, em relação com uma coletividade. Essa dinâmica se conecta à generalização do traumático e à história dos usos políticos da primeira pessoa e da experiência.

O trauma pode nomear marcas subjetivas ou rupturas provocadas por adversidades e excessos externos. Essa conjuntura inclui traumatismos de guerra, como os associados a Gaza, à Rússia e à Ucrânia; catástrofes naturais, como terremotos e tsunamis; efeitos do antropoceno; e catástrofes técnicas, como Chernobyl, Fukushima e os rompimentos de barragens em Mariana e Brumadinho.

Nas dissidências, porém, a própria norma também é percebida como produtora do traumático. A questão não é apenas a generalização das dores, mas também a generalização das lutas. As narrativas de si podem constituir um sujeito político voltado a desfazer ou ampliar os limites de uma norma que produz sofrimento.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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