SÃO PAULO — A burocracia financeira está fazendo donos de pequenos negócios adiarem decisões de crescimento e deixarem oportunidades comerciais de lado. Em pesquisa da Nu Empresas e da Bridge Research, 85% dos entrevistados disseram ter renunciado a tarefas importantes para a expansão e a saúde da empresa nos últimos três meses por causa dessas obrigações.
O planejamento foi o item mais afetado: 37% deixaram de preparar o crescimento do negócio para o próximo ano. Outros 35% reduziram o tempo dedicado aos clientes atuais, enquanto a mesma proporção deixou de investir em divulgação ou marketing. Cursos, treinamentos e eventos do setor foram abandonados por 33%. Apenas 15% afirmaram não ter deixado de fazer nenhuma atividade.
A pesquisa ouviu 1.200 donos de pequenos negócios em todo o Brasil, entre clientes e não clientes do banco digital. Para 68%, a empresa seria mais lucrativa se houvesse menos burocracia. Além disso, 53% associaram essas tarefas a estresse e ansiedade, e a mesma parcela disse deixar de se concentrar em estratégia e crescimento. Outros 45% relataram perda de oportunidades de negócio durante a resolução de questões burocráticas e financeiras.
Tempo consumido por tarefas operacionais
Os empreendedores gastam, em média, nove horas por semana com essas atividades. Ao longo do ano, o total chega a 468 horas, ou quase 3 meses. As obrigações fiscais e tributárias foram citadas por 43% como a tarefa que mais consome tempo. Depois aparecem o controle de entradas e saídas, com 41%, e a emissão de notas fiscais, com 40%.
A conciliação — conferência para verificar se o dinheiro de cada venda entrou na conta — ocupa 30% dos entrevistados. No controle do caixa, 23% usam papel ou caderneta, 53% recorrem a planilhas digitais e 29% utilizam plataformas oferecidas pelos bancos.
A carga varia conforme o porte. Microempreendedores individuais gastam oito horas semanais com tarefas financeiras e burocráticas, enquanto micro e pequenas empresas chegam a dez horas. No varejo, a média é de 11 horas por semana, contra 8 horas entre donos de escritórios e consultórios.
Relatos de empreendedores
Shirley Moreira, 58, administra há mais de 25 anos uma loja de varejo e atacado na avenida 25 de Março, em São Paulo. Ela define a burocracia como uma “perda de tempo” e afirma: “Tenho um monte de coisa que dá para fazer e melhorar. Só que como melhora?”.
Agdo Gabriel Freire Dantas, 26, dono de uma empresa de transporte de água potável por caminhão-pipa em Porto Velho, afirma que as obrigações tributárias estão entre os principais gargalos da operação. Mesmo com o apoio de um escritório de contabilidade, ele diz que as regras mudam por decisões dos legislativos federal, estadual e municipal.
Como atende órgãos do poder público, a empresa precisa manter licenças, outorga para uso dos poços, balanços e certidões negativas. Agdo afirma que, com mais tempo, investiria em marketing digital, incluindo mídias, impulsionamento e influenciadores, para fechar contratos e captar clientes.


