SÃO PAULO — A capacidade solar instalada na África pode estar avançando em ritmo muito superior ao indicado pelos registros oficiais. As organizações Ember e African Tech Futures Lab estimam que o continente tenha instalado 12 GW de energia solar em 2025, enquanto a Agência Internacional de Energia Renovável identificou 3,8 GW no mesmo ano, considerando principalmente grandes parques solares.
A diferença decorre da falta de informações atualizadas e da dificuldade de contabilizar sistemas menores, como painéis em residências e comércios. Segundo o relatório, 75% do crescimento solar africano entre 2023 e 2025 veio da geração distribuída, que costuma ficar fora das estatísticas nacionais.
Importações chinesas como referência
Para estimar a expansão, as organizações examinaram as importações de placas solares da China, origem de 94% dos painéis instalados na África. Os dados indicam que nunca havia entrado no continente um volume tão alto de placas chinesas. O cálculo considera que 73% dos equipamentos são instalados em até seis meses após a importação, de acordo com as práticas do mercado.
Com base nessa metodologia, a previsão é de 17 GW instalados até o fim de 2026. O volume representa alta de 45% em relação a 2025 e equivale a 1,2 vez a capacidade da usina hidrelétrica de Itaipu.
Dave Jones, pesquisador e um dos principais autores do relatório, afirmou que as exportações chinesas ajudam a dimensionar o avanço, embora não sejam o método ideal. Apenas 14 dos 54 países africanos divulgaram informações sobre sua capacidade solar em 2025.
Ao todo, 36 países devem registrar recorde de instalação neste ano. Em 19 deles, o crescimento supera 100% na comparação com 2025. Entre os maiores avanços estão República Democrática do Congo, com 544%; Zimbábue, com 282%; Egito, com 176%; e Zâmbia, com 117%.
A África do Sul lidera a capacidade solar instalada em 2026, mas concentra menos de 20% dos painéis montados no continente. Para as organizações, o dado indica que a tecnologia está se disseminando por um número maior de países.
Diesel e limites da infraestrutura
Jones afirma que a expansão solar reduz a dependência de geradores a diesel. O custo desses equipamentos aumentou até duas vezes em razão dos efeitos da guerra dos Estados Unidos contra o Irã sobre a circulação de petróleo no Oriente Médio, além da retirada de subsídios em países como Nigéria e Egito.
O relatório estima em US$ 2,4 bilhões (R$ 11,9 bilhões) por ano o custo da importação de placas fotovoltaicas chinesas. O valor corresponde ao gasto com geração elétrica a diesel durante três meses. De acordo com o documento, os painéis duram 30 anos ou mais e podem reduzir despesas ao longo do tempo.
A expansão, porém, pressiona redes elétricas locais que não foram preparadas para cargas elevadas. Uma das alternativas é o chamado curtailment, que consiste em cortar parte da geração renovável e descartar o excedente para preservar a estabilidade do sistema. Especialistas apontam o armazenamento em baterias como forma de aproveitar melhor essa energia.
O relatório afirma que a falta de dados impede que os países incorporem a geração distribuída aos seus planos. Joel Nana, diretor de pesquisa do African Tech Futures Lab, disse que os formuladores de políticas públicas precisam reagir à mudança no setor.
A COP31, conferência das Nações Unidas sobre mudanças climáticas prevista para novembro, na Turquia, propôs elevar para 35% a participação da eletrificação na energia global até 2035. O índice atual é de 23% no mundo e de 12% na África, segundo a Agência Internacional de Energia.


