Operações do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) começaram a afetar o funcionamento de frigoríficos no Kansas, um dos principais polos de produção de carne bovina do país. O receio de abordagens levou parte dos trabalhadores a faltar, reduzindo o ritmo de abate e atrasando o envio de milhares de bois para processamento.
O impacto ocorre enquanto os Estados Unidos enfrentam o menor rebanho bovino em cerca de 75 anos. A carne está em preços recordes, e uma nova redução na atividade dos frigoríficos pode aumentar a pressão sobre a oferta.
A cadeia depende de várias etapas: os pecuaristas criam o gado, os animais passam por confinamentos e depois são encaminhados aos frigoríficos, onde são abatidos e transformados em carne para supermercados e restaurantes. Nos últimos anos, os produtores reduziram o número de animais porque a seca encareceu e dificultou a criação. Com menos bois, há menos matéria-prima disponível para processamento.
Medidas do governo e reação dos pecuaristas
Para ampliar a oferta e tentar reduzir os preços, o governo de Donald Trump autorizou a importação temporária de até 300 mil toneladas de carne moída em 90 dias sem a tarifa adicional normalmente aplicada quando o limite de uma cota é ultrapassado.
Parte dos pecuaristas americanos se opõe à medida. Eles temem que o aumento da entrada de carne estrangeira diminua o valor pago pelos animais nos Estados Unidos e reduza o incentivo para ampliar a criação. Trump também abriu uma investigação sobre o funcionamento do mercado e sobre as grandes empresas processadoras.
A discussão ocorre antes das eleições de meio de mandato, marcadas para novembro. Nessa votação, os americanos escolherão deputados e parte dos senadores, definindo a maioria no Congresso pelos dois anos seguintes. Uma pesquisa Reuters/Ipsos realizada em setembro mostrou que 17% dos americanos aprovavam a atuação de Trump em relação ao custo de vida.
Abate recua
Nesta semana, agentes do ICE intensificaram operações em Dodge City, Liberal e Garden City. Autoridades locais, organizadores comunitários e entidades do setor afirmam que trabalhadores deixaram de comparecer aos frigoríficos por medo de abordagens. A redução da mão de obra e os atrasos no transporte de animais passaram a afetar a cadeia.
Na quinta-feira (24), os frigoríficos americanos abateram cerca de 90 mil bovinos, 16% menos do que na mesma quinta-feira da semana anterior, conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Na quarta-feira, a queda havia sido de aproximadamente 9%.
Não é possível determinar quanto da redução foi causado diretamente pelas operações do ICE. Entidades do setor, porém, relacionam o recuo à menor disponibilidade de trabalhadores e aos atrasos no deslocamento dos animais.


