OIAPOQUE — A expectativa em torno da exploração de petróleo já alterou a dinâmica de Oiapoque, no Amapá. O prefeito Inácio Monteiro Maciel afirma que a cidade recebeu novos moradores nos últimos anos e estima que a população tenha chegado a entre 40 mil e 45 mil pessoas. No Censo de 2022 do IBGE, eram cerca de 28 mil habitantes.
A procura por imóveis também aumentou e provocou especulação imobiliária, segundo o prefeito. Famílias deixaram áreas centrais e passaram a buscar moradia em bairros periféricos. No Nova Conquista, Thais Pereira de Souza, de 32 anos, vive com o marido, dois filhos e a nora grávida em uma casa sem água nem eletricidade. A família usa dois colchões e duas redes para evitar o aluguel do imóvel onde morava no centro. Thais espera que o petróleo melhore sua qualidade de vida.
Empregos e royalties
A Petrobras iniciou há cerca de um ano a exploração offshore na costa do Amapá. Em agosto, a empresa informou ter identificado hidrocarbonetos no primeiro poço, localizado a 175 km da costa. A área fica em uma região onde Guiana e Suriname já produzem petróleo em larga escala.
Um estudo do Observatório Nacional da Indústria estima que mais de 50 mil empregos poderiam ser criados no Amapá. Caso a produção comercial avance, a atividade também poderá gerar royalties para os governos locais. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, afirmou em agosto que a produção não deve começar nos próximos seis ou sete anos.
O prefeito diz estar otimista, mas reconhece a necessidade de investimentos em infraestrutura e políticas sociais. “Precisamos começar quase tudo do zero”, afirmou. A presidente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque, Lilma Campos, prevê mudanças, embora avalie que ainda não seja possível medir o impacto econômico. “A gente não sabe se isso realmente é verdade”, disse, ao comentar as expectativas de transformação da cidade.
Receio nas comunidades
Na aldeia Mangá, a cerca de 20 km do centro de Oiapoque, o cacique Wagner Karipuna, de 57 anos, teme que um vazamento alcance os rios da região. Ele vive às margens do rio Curipi e afirma que a água não respeita fronteiras.
A Petrobras diz que seus estudos não apontam probabilidade de o petróleo chegar à costa. A companhia também afirma manter diálogo com comunidades indígenas e ter ajustado o tráfego aéreo após conversar com lideranças locais.
Jean Paul Prates, que presidiu a Petrobras entre 2023 e 2024, afirma que não existe exploração offshore sem risco. Segundo ele, a chance de vazamento é baixa, mas as consequências poderiam ser graves. Wagner também relata incômodo com o barulho diário de helicópteros e aviões, que, segundo ele, afasta aves e outros animais.
Entre os pescadores, Joelso Mendonça, vice-presidente da colônia Z03, que reúne cerca de 400 pessoas, teme prejuízos à atividade caso ocorra um vazamento. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva visitou a região após o anúncio da Petrobras e chamou o petróleo local de “passaporte para o futuro”. Oiapoque fica a cerca de 600 km de Macapá, e o acesso inclui trechos de estrada de terra e pontes de madeira.


