OIAPOQUE — A possível produção de petróleo no litoral do Amapá já altera a dinâmica de Oiapoque, mesmo antes do início da extração. A Petrobras começou a explorar a região em alto-mar há um ano, e o prefeito Inácio Monteiro Maciel afirma que o fluxo de novos moradores se intensificou desde o começo das perfurações.
A empresa informou em agosto ter identificado sinais de petróleo em um poço localizado a cerca de 175 quilômetros da costa. A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, declarou que a produção não deve começar antes de seis ou sete anos.
Receitas e empregos no horizonte
A expectativa econômica mobiliza moradores, empresários e autoridades locais. Um estudo do Observatório Nacional da Indústria estima que mais de 50 mil empregos poderiam ser criados no Amapá. Os royalties que a Petrobras deverá pagar quando a produção começar também podem gerar receita para as autoridades locais.
Maciel se diz muito otimista, mas reconhece que Oiapoque terá de praticamente começar do zero em infraestrutura e políticas sociais. Mais da metade dos cerca de 28 mil habitantes registrados no Censo de 2022 recebe o Bolsa Família.
O prefeito estima que a população atual esteja entre 40 mil e 45 mil pessoas. A expansão demográfica veio acompanhada de aumento da especulação imobiliária, que, segundo ele, levou famílias a deixar o centro e buscar bairros periféricos com condições frequentemente precárias.
No bairro Nova Conquista, Thais Pereira de Souza vive com a família em uma pequena casa de telhado de metal, sem água ou eletricidade. O grupo ocupa um único cômodo depois de não conseguir mais pagar o apartamento onde morava no centro. Ela espera que a vida melhore com o petróleo.
Jacqueline Cadete, pastora evangélica de 45 anos, mudou-se para Oiapoque no fim de 2025, depois de viver na Guiana Francesa e na França metropolitana. Ela foi atraída pelas oportunidades associadas à exploração.
Temores entre indígenas e pescadores
Na aldeia Manga, a cerca de 20 quilômetros do centro de Oiapoque, o cacique Wagner Karipuna acompanha com preocupação o rio Curipi, que passa ao lado da comunidade onde vivem 1.800 pessoas. Ele teme que um vazamento na costa seja levado pelas marés até o rio. “A água não tem fronteiras”, afirmou Karipuna.
A Petrobras declarou que suas análises não indicam probabilidade de o petróleo chegar à costa em caso de vazamento. A empresa também informou manter diálogo contínuo com a sociedade civil e comunidades indígenas e disse ter feito ajustes no tráfego aéreo após consultas com lideranças indígenas.
Jean Paul Prates, que comandou a Petrobras entre 2023 e 2024 e hoje preside o Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia, afirmou que não existe risco zero na exploração em alto-mar. Para ele, trata-se de um risco de baixa probabilidade, mas com consequências potencialmente graves.
Karipuna relata impactos já percebidos na aldeia por causa do barulho de aviões e helicópteros, que, segundo ele, espanta aves e animais de caça. Joelso Mendonça, vice-presidente de um grupo que reúne quase 400 pescadores tradicionais, teme que um vazamento afete a comercialização do pescado.
A expectativa também convive com a falta de estrutura. Oiapoque fica a 600 quilômetros de Macapá, em um percurso que inclui trechos de estrada de terra e pontes improvisadas. Lilma Campos, presidente da Associação Comercial e Industrial de Oiapoque, prevê mudança radical, mas rejeita a ideia de que a cidade necessariamente se transforme em uma nova Dubai: “realmente não sabemos o que vai acontecer”.


