O governo dos Estados Unidos pretende reestruturar a dívida da Venezuela, que inclui bilhões de dólares devidos à China, ao mesmo tempo que busca impedir que Pequim receba receitas de novos projetos de petróleo no país. A medida amplia a disputa entre Washington e Pequim pela influência na América do Sul.
O secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, afirmou na quarta-feira (2) que a China não terá direito aos recursos gerados pela nova produção venezuelana. A decisão elimina uma das vias utilizadas para pagar compromissos financeiros de Caracas com bancos chineses.
A ofensiva faz parte da chamada “Doutrina Donroe”, incorporada à Estratégia de Segurança Nacional da Casa Branca. O documento estabelece que os Estados Unidos podem impedir que potências rivais controlem ativos considerados estrategicamente importantes. Nesse contexto, a retirada de campos venezuelanos de empresas chinesas é tratada por Washington como uma forma de aproximar esses ativos de seus interesses.
Exposição chinesa e dívida venezuelana
A participação da China no setor de energia venezuelano diminuiu nos últimos anos. O petróleo bruto do país representou 4% das importações totais chinesas em 2025. Também não houve registro de carregamentos venezuelanos chegando à China desde que o governo Trump assumiu o controle de ativos após a captura do então presidente Nicolás Maduro, no início deste ano.
A dívida venezuelana com bancos chineses, porém, continua sendo uma questão central. Estimativas indicavam que o valor chegava a pelo menos US$ 10 bilhões (R$ 51,2 bilhões) em 2025. O montante caiu em relação ao pico, mas ainda está ligado a barris de petróleo que não foram entregues.
A China começou a financiar obras de infraestrutura e energia na Venezuela em 2007, durante o governo de Hugo Chávez. Até 2015, bancos estatais chineses haviam concedido mais de US$ 60 bilhões (R$ 306 bilhões) em empréstimos garantidos por petróleo.
Empresas como a CNPC, controladora da PetroChina, a Corporação Nacional de Petróleo Offshore da China e a Concord Resources participaram de projetos ou investiram em ativos de produção. A deterioração da economia venezuelana, a baixa capacidade operacional das instalações e as sanções americanas impostas em 2019 reduziram a presença chinesa no país.
Reação de Pequim
O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, disse na quinta-feira que os “direitos e interesses legítimos” chineses na Venezuela devem ser protegidos. Ele também afirmou que a cooperação entre os dois países é amparada pelo direito internacional e não envolve terceiros.
O impacto econômico direto pode ser limitado, já que Pequim reduziu sua exposição ao país. As consequências políticas, contudo, podem ser maiores, especialmente diante da possibilidade de Washington usar sua influência para restringir a atuação chinesa na região.
Ainda não está definido quais projetos ligados à China foram incluídos no acordo de concessão por 100 anos anunciado pelos Estados Unidos. Os governos americano e venezuelano não divulgaram quais campos fazem parte do acordo. Nesta semana, o governo dos EUA negociou uma participação de 35% na North American Blue Energy Partners, empresa do empresário venezuelano Alejandro Betancourt, com acesso a 17 campos de petróleo.
Para as refinarias chinesas, a interrupção pode pesar sobre o fornecimento de petróleo pesado usado na produção de betume. Processadores independentes de Shandong dependiam desse insumo venezuelano, e a redução da oferta pressionou o mercado doméstico do produto.


