MAGDEBURGO — Organizações que apoiam migrantes na Saxônia-Anhalt passaram a buscar estratégias de proteção e novos doadores após a vitória da Alternativa para a Alemanha (AfD) na eleição estadual do último dia 6. O partido poderá formar uma coalizão com uma legenda populista e assumir o governo, embora não tenha conquistado maioria absoluta no Parlamento estadual.
A possibilidade colocaria a extrema direita no comando de um estado alemão pela primeira vez desde 1945. Dirigentes da AfD reafirmaram promessas de campanha como deportações em massa de refugiados, substituição de trabalhadores estrangeiros por alemães, mudanças na educação voltadas ao nacionalismo e ao orgulho étnico e retirada de verbas para centros governamentais e organizações sem fins lucrativos que apoiam imigrantes.
Ulrich Siegmund, principal representante do partido na Saxônia-Anhalt, afirmou que estava disposto a usar equipamentos militares para realizar deportações. Parte dessas medidas, porém, não está sob autoridade dos governos estaduais.
Medo entre trabalhadores e refugiados
A possibilidade de mudança política levou refugiados e trabalhadores estrangeiros a considerar a transferência para outros estados alemães ou para o exterior. Estudantes internacionais esperam que as universidades cumpram promessas de protegê-los de eventuais retaliações do governo.
Em Magdeburgo, capital da Saxônia-Anhalt, imigrantes relataram hostilidade e discriminação crescentes durante a campanha eleitoral. Afsaneh Mehrpouyan, 33, imunologista iraniana que se mudou para o norte da Alemanha em 2022 e depois passou a trabalhar em uma universidade da cidade, disse que sua família considera deixar novamente o estado. Ela afirmou que trabalhadores estrangeiros ocupam áreas essenciais, como a saúde, e questionou se serão tratados de forma igualitária.
O assistente social Amidou Traore, 57, natural da Costa do Marfim, participou de um encontro de ativistas favoráveis aos migrantes na noite da eleição. Depois da divulgação das pesquisas de boca de urna, que indicavam ampla vantagem da AfD, os participantes ficaram em silêncio. Com a confirmação da vitória, alguns foram embora mais cedo e choraram. “Quando se vê uma coisa dessas, bate o desespero”, disse Traore.
Dois dias antes da votação, ele contou ter sido alvo de um grupo de meninos enquanto distribuía panfletos em um shopping center para uma iniciativa da Igreja Católica Romana contrária à AfD. Segundo Traore, um deles apontou para ele e gritou: “Deportação!”.
A AfD ganhou força com a oposição à imigração na Saxônia-Anhalt e em outras partes da Alemanha, especialmente depois que o país recebeu 890 mil refugiados em 2015. No estado, o número de estrangeiros passou de 47 mil, em 2014, para 192 mil em 2025, segundo estatísticas estaduais.
Financiamento de organizações
A Saxônia-Anhalt tem 2,1 milhões de habitantes. Cerca de um terço dos estrangeiros é formado por refugiados, principalmente da Síria e da Ucrânia, e quase todos têm direito legal de permanecer na Alemanha segundo a legislação federal.
A chegada de imigrantes alimentou receios sobre empregos e criminalidade. Especialistas afirmam que trabalhadores estrangeiros podem ajudar a suprir a escassez de mão de obra qualificada. Segundo estatísticas estaduais, a criminalidade caiu na Saxônia-Anhalt desde 2014. Em 2025, no entanto, a proporção de crimes com suspeitos entre solicitantes de asilo e imigrantes sem situação legal, excluídas as infrações migratórias, foi desproporcionalmente alta em relação à participação desses grupos na população.
A Casa Um Só Mundo, associação de defesa dos direitos dos migrantes que organizou o encontro eleitoral, também enfrenta incertezas. Fundada em resposta a ataques da direita contra estrangeiros em 1994, a entidade oferece espaço a organizações que prestam assistência jurídica e social.
Quase 30% de seu orçamento anual, de aproximadamente US$ 2,6 milhões (R$ 13,3 milhões), vêm do governo da Saxônia-Anhalt. Krzysztof Blau, que dirige a associação, disse que a casa poderá ser obrigada a fechar em janeiro caso a AfD chegue ao poder e retire o financiamento.
Alguns imigrantes avaliam que o partido terá dificuldade para alterar a vida de estrangeiros em situação regular. Rahimi Qabilshaha, 35, profissional de segurança que chegou à Alemanha em 2021, depois que o Talibã assumiu o controle do Afeganistão, afirmou que será preciso observar as medidas adotadas pela AfD antes de avaliar seus efeitos.
Neste domingo (20), a AfD também aparecia à frente nas projeções da eleição em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, com 38,1%, contra 35,5% do SPD de Manuela Schwesig. O resultado deveria permitir a permanência da governadora. Em Berlim, a legenda tinha projeção de 16,2%, atrás de A Esquerda, com 25,7%, e da CDU, com 18,8%.


