Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas para a Palestina, defende que o Brasil suspenda todo o comércio com Israel como forma de pressionar o país a cumprir o direito internacional. Ela também pede sanções, interrupção das exportações de armas e energia e o fim do fornecimento de carvão usado, segundo sua avaliação, na operação militar israelense.
Albanese afirmou que a suspensão do comércio seria a única forma legal de lidar com Israel e de preservar o sistema internacional de direitos. Para ela, os Estados-membros da ONU não devem auxiliar um país que possivelmente comete crimes internacionais.
A relatora também citou as sanções impostas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos contra pessoas que colaboravam com a investigação do Tribunal Penal Internacional sobre as ações de Israel na Faixa de Gaza. As medidas foram aplicadas em julho de 2025 e suspensas em maio, depois que um juiz federal americano considerou que violavam a liberdade de expressão de Albanese.
Segundo a relatora, as sanções afetaram sua vida pessoal e profissional. Ela disse que perdeu o visto diplomático nos Estados Unidos, sua afiliação acadêmica na Universidade Georgetown foi encerrada, seu apartamento foi confiscado, o seguro de saúde foi cancelado e sua conta bancária foi fechada. Albanese classificou o episódio como uma violação de seus privilégios e imunidades como integrante do sistema ONU.
Disputa sobre declarações
Em fevereiro, a ONG UN Watch publicou um vídeo editado no qual Albanese aparentava afirmar que Israel era “o inimigo comum” da humanidade. Ela esclareceu depois que se referia ao sistema que, em sua avaliação, permite o genocídio na Palestina, e não ao país. O episódio levou França e Alemanha a pedirem sua renúncia. O mandato da relatora termina em 2028.
Albanese afirmou que não mudou a forma de se manifestar publicamente após o vídeo. Ela disse que já foi acusada de apoiar o Hamas e o terrorismo, mas citou o registro de declarações em que condena os ataques de 7 de Outubro e os crimes cometidos pelo grupo contra civis israelenses.
Israel e seus aliados frequentemente acusam a relatora de antissemitismo. Israel a declarou persona non grata e proibiu sua entrada no país desde fevereiro de 2024. A medida ocorreu depois de Albanese afirmar que os civis israelenses mortos no ataque do Hamas em 7 de Outubro foram assassinados em resposta à opressão cometida por Israel, e não por serem judeus.
Acusação de apartheid
Ao tratar da situação na Cisjordânia, Albanese afirmou que a Convenção do Apartheid de 1973 não se limita ao caso da África do Sul. Para ela, a discriminação racial pode ser aplicada à distinção entre grupos étnicos.
A relatora sustenta que Israel usa diferenças religiosas e étnicas para estabelecer um sistema de dominação contra os palestinos. Israel afirma que o tratamento diferenciado na região se baseia em nacionalidade, e não em raça. A Corte Internacional de Justiça, conforme mencionado na discussão, não declarou explicitamente que Israel comete apartheid na Cisjordânia.
Albanese também avaliou que uma mudança de governo em Israel não alteraria, no curto ou médio prazo, a política em relação aos palestinos. Ela citou o objetivo de anexação associado a integrantes do governo de Binyamin Netanyahu e afirmou que a limpeza étnica seria uma prioridade para muitos israelenses.
Nascida no sul da Itália, Albanese tem formação em direito pela Universidade de Pisa e mestrado em direito humanitário pela Universidade de Londres. Ela trabalhou no Escritório de Direitos Humanos da ONU e na UNRWA, agência das Nações Unidas para refugiados palestinos. Foi eleita em 2022 pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU para o cargo de relatora especial sobre a situação dos direitos humanos no território palestino ocupado.


