SÃO PAULO — O jornalista Carlos Dada, cofundador e diretor do El Faro, criticou a defesa do chamado modelo Bukele por pré-candidatos à Presidência do Brasil. Para ele, a política adotada em El Salvador não se limita ao combate ao crime organizado e envolve detenções sem ordem judicial, restrições ao direito de defesa e concentração de poder.
Dada afirmou que ficou preocupado com a quantidade de candidatos brasileiros que apresentam o modelo como solução para a violência. Também relatou apreensão com a aproximação de parte do empresariado do país, depois que Gustavo Villatoro, chefe da Segurança Pública de El Salvador, apresentou a política a industriais em São Paulo.
Segundo o jornalista, o modelo permite que polícia e Exército façam detenções em larga escala com base apenas na suspeita atribuída pelas autoridades. Ele citou registros nos quais a justificativa para uma prisão teria sido o fato de a pessoa ter ficado nervosa.
O regime de exceção está no quinto ano em El Salvador. Dada afirmou que os detidos podem ser levados a unidades prisionais sem receber visitas de familiares ou advogados e sem que seus parentes sejam informados sobre o paradeiro. Em alguns casos, o julgamento ocorre diante de um juiz anônimo, ao lado de outras 100 ou 200 pessoas.
A prisão Cecot e o encarceramento
A prisão Cecot, sigla para Centro de Confinamento do Terrorismo, tornou-se a principal imagem associada ao modelo no Brasil. Dada disse que a unidade é limpa, organizada e tem ocupação de cerca de 60%, mas não representa as condições enfrentadas pela maioria dos presos. De acordo com ele, os demais detidos são encaminhados a outros 22 presídios, cujo acesso é restrito, inclusive para jornalistas convidados a visitar a Cecot.
O jornalista afirmou que El Salvador mantém 1 em cada 50 cidadãos presos. Também relatou a existência de tortura sistemática dentro das unidades prisionais e disse que mais de 400 pessoas morreram em decorrência desses abusos. Segundo sua descrição, parte delas foi enterrada em valas comuns sem que as famílias fossem avisadas.
Dada mencionou relatório da Anistia Internacional e outro documento produzido por um grupo independente de juristas. De acordo com esses materiais, o regime de Nayib Bukele comete crimes contra a humanidade.
Caso o Brasil reproduzisse a proporção salvadorenha de encarceramento, a população prisional chegaria a 4 milhões de pessoas, segundo o cálculo apresentado pelo jornalista. O país tem pouco menos de 1 milhão de presos e ocupa a terceira posição entre as maiores populações carcerárias do planeta, atrás dos Estados Unidos, com 1,8 milhão, e da China, com 1,7 milhão.
Pacto com gangues e apoio popular
Dada afirmou que o governo de Bukele manteve um pacto documentado com gangues. O acordo teria previsto a redução dos homicídios em troca de benefícios e também apoio eleitoral em áreas controladas por esses grupos. O pacto começou quando Bukele ainda era prefeito de San Salvador e foi rompido dois anos depois de sua chegada à Presidência.
A ruptura foi seguida pela morte de 87 pessoas em um fim de semana e pela mobilização das forças de segurança dentro do regime de exceção. O jornalista disse que documentos relacionados a processos judiciais em Nova York registram promessas feitas pelo governo a integrantes das gangues e a libertação ilegal de líderes que cumpriam condenações de 40 anos.
Na avaliação de Dada, a popularidade de Bukele está ligada à redução da violência percebida pela população e à propaganda oficial. Ele afirmou que as capturas foram indiscriminadas e que dois terços dos detidos seriam inocentes, embora a ofensiva tenha reduzido o medo em comunidades afetadas pelas gangues.
O jornalista também relacionou a ascensão desses grupos à deportação, após o fim da guerra civil, de integrantes de gangues da Califórnia para El Salvador. Em 2000, o presidente Francisco Flores lançou o plano Mano Dura, que ampliou as operações de segurança nas comunidades. Depois, durante o governo de Mauricio Funes, ocorreu outro pacto com as gangues, inicialmente mantido em segredo e posteriormente tornado público.
Saída de El Salvador
O El Faro deixou El Salvador depois de publicar informações sobre o pacto entre o governo e as gangues e sobre casos de corrupção. Dada disse que o jornal passou a ser alvo de pressão, ameaças e ataques. Ele afirmou ter sido acusado por Bukele, em rede nacional, de lavagem de dinheiro, enquanto o El Faro foi acusado de sonegação de impostos.
O jornalista declarou que não pode voltar ao país. Segundo ele, defensores de direitos humanos que permaneceram em El Salvador foram presos, e ele e funcionários do jornal foram declarados inimigos públicos pelo governo. Em uma viagem à Costa Rica para um congresso, jornalistas do El Faro receberam alertas de que seriam presos no aeroporto ao tentar retornar.
Dada afirmou que a oposição foi enfraquecida por uma campanha pública e que, após obter maioria legislativa, Bukele destituiu os juízes da Suprema Corte e o procurador que investigava casos de corrupção. Os substitutos foram nomeados na mesma sessão legislativa. Depois, a Corte reinterpretou a Constituição para permitir a reeleição.
Para o jornalista, Bukele não deve deixar o poder no curto prazo. Dada avalia que o presidente já ultrapassou o ponto em que permanecer no cargo deixa de ser apenas uma escolha política e passa a ser uma necessidade para evitar consequências posteriores.


