A China usa os pandas como instrumento diplomático em momentos de aproximação e de tensão com outros países. O mecanismo combina contratos de empréstimo, interesse turístico e uma mensagem política: os animais podem chegar como sinal de amizade e deixar o país quando as relações se deterioram.
Xi Jinping resumiu o gesto ao anunciar a chegada de novos animais: “O panda gigante é um mensageiro da amizade entre chineses e americanos.” A declaração ocorreu enquanto China e Estados Unidos mantêm uma disputa tecnológica e tentam evitar uma escalada em torno de Taiwan.
De presente a contrato
A prática começou antes da chegada do Partido Comunista ao poder. O governo de Chiang Kai-shek enviou dois pandas ao Zoológico do Bronx, em Nova York, como agradecimento pela ajuda americana na Guerra do Japão. Depois da derrota de Chiang, Mao Tsé-Tung manteve a tradição, mas direcionou os animais aos aliados socialistas.
A reaproximação sino-americana de 1972 levou Ling Ling e Hsing Hsing a Washington. Naquele mesmo ano, o Japão estabeleceu relações com a China comunista e também recebeu pandas.
Após a morte de Mao, Deng Xiaoping abriu a economia chinesa ao mercado. Os pandas deixaram de ser doados e passaram a ser alugados. Nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984, dois animais foram cedidos por seis meses, a US$ 50 mil por mês cada um.
Atualmente, os contratos costumam durar dez anos, e o valor pode chegar a um milhão de dólares por ano por casal. Os animais atraem visitantes e ajudam a movimentar a venda de souvenires. Filhotes nascidos no exterior, porém, pertencem à China e precisam ser devolvidos.
O animal como mensagem política
Para Thiago de Aragão, especialista em relações China-América e CEO da Arko Internacional, a retirada dos pandas comunica uma ruptura: “se você trai a minha confiança, eu vou retirar e nós vamos ter que começar do zero”.
Em novembro do ano passado, a primeira-ministra japonesa Sanae Takaichi afirmou que uma eventual invasão chinesa a Taiwan poderia provocar uma resposta militar japonesa. A China desaconselhou viagens ao Japão, houve cancelamento de voos e, em dezembro, o número de turistas chineses no país caiu quase pela metade. Em janeiro, os dois últimos pandas japoneses voltaram à China.
Nos Estados Unidos, a devolução ocorreu depois de uma visita de Nancy Pelosi a Taiwan, em 2022, e da derrubada, em 2023, de um suposto balão espião chinês. Atlanta também devolveu seus animais.
Taiwan e a disputa entre potências
Os pandas de Taipé têm um status diferente: foram oferecidos em 2005, recusados e aceitos em 2008. São doados, e não alugados, porque a China considera a operação doméstica. Para o governo chinês, os animais reforçam a ideia de que Taiwan faz parte do país.
A chegada dos novos pandas aos Estados Unidos ocorreu após uma cerimônia com hinos dos dois países, guarda de honra, salva de 21 tiros e sobrevoo de avião militar. No jantar, estavam bilionários ligados aos algoritmos e aos códigos da inteligência artificial, com fortunas somadas de mais de dois trilhões de dólares.
O encontro produziu um compromisso para que China e Estados Unidos se avisem caso algo dê muito errado, enquanto os dois governos prometem manter a corrida tecnológica. Ao mesmo tempo, a questão de Taiwan permanece como uma linha vermelha para Xi Jinping. Nesse cenário, os pandas funcionam como um sinal de que há disposição para evitar a escalada, sem eliminar a disputa.


