RIO DE JANEIRO — A falta de recursos do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) já limita o atendimento a pessoas que buscam proteção no Brasil. Até o fim de agosto, a agência havia recebido 22% do valor necessário para operar durante todo o ano de 2026, segundo Davide Torzilli, representante do ACNUR no país.
A redução ocorre enquanto até 500 pessoas chegam diariamente ao Brasil para pedir proteção internacional. De acordo com Torzilli, parte dos refugiados deixou de ter acesso a programas apoiados pelo ACNUR ou por organizações parceiras. Outros passaram a receber atendimento mais restrito, conforme critérios de vulnerabilidade e prioridades de proteção.
No ano passado, 40% da força de trabalho do ACNUR e das organizações parceiras financiadas pela agência no Brasil foi cortada. A instituição afirma que mais da metade dos refugiados que precisam de apoio no país pode ser afetada. Entre os riscos apontados estão a falta de abrigo, alimentação e itens básicos.
O impacto dos cortes
A crise brasileira faz parte de uma redução mais ampla no sistema das Nações Unidas. Um relatório do Conselho de Chefes Executivos da ONU mostra que o número de postos de trabalho caiu de 130.948, em 2024, para 120.176, em 2025, uma redução de 8%. Os cortes atingiram 21 das 41 agências e organismos da organização.
Para 2026, foram aprovadas a extinção de outros 2,9 mil cargos, além de programas de demissão voluntária e aposentadoria antecipada. ACNUR, Organização Internacional para as Migrações (OIM) e Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) estão entre os organismos mais afetados.
A manutenção de toda a estrutura da ONU custou US$ 64,3 bilhões (R$ 322 bilhões) em 2025, valor 2% menor que o de 2024. Dois terços dos recursos foram destinados à assistência humanitária e a ações de desenvolvimento. Para 2026, o orçamento do Secretariado da ONU foi reduzido em 7%, para US$ 3,45 bilhões (R$ 16 bilhões).
António Guterres afirmou, no fim do ano passado, que a situação financeira da organização era a mais frágil em anos. Stéphane Dujarric, porta-voz do secretário-geral, disse que os Estados Unidos reduziram de forma acentuada as contribuições voluntárias para a assistência humanitária. O país respondia por cerca de 45% do orçamento dessa área, enquanto países europeus também diminuíram os repasses.
Déficit do ACNUR
O ACNUR havia solicitado US$ 10,6 bilhões para atender quase 130 milhões de pessoas em todo o mundo, mas arrecadou menos de 40% do montante. Em 2024, a agência havia obtido 48% do valor considerado necessário.
Como resultado, o ACNUR reduziu em um terço sua força de trabalho, fechou escritórios em 140 locais e encerrou operações em 15 países. A agência estima que 8,3 milhões de pessoas possam deixar de receber assistência vital neste ano. No Chade, mais de 230 mil crianças podem ficar sem serviços de proteção infantil.
A situação continuou se deteriorando em 2026. Mesmo após reduzir o orçamento em 20%, o ACNUR havia recebido, até o fim de julho, US$ 2,7 bilhões dos US$ 8,5 bilhões necessários para funcionar no ano. Mais da metade do dinheiro arrecadado tem destinação determinada pelos doadores, o que limita o uso dos recursos.
Pressão dos Estados Unidos
A ONU também enfrenta atrasos nas contribuições obrigatórias dos países-membros. Nos últimos dois anos, os governos deixaram de pagar US$ 1,6 bilhão. No mês passado, a organização informou que os Estados Unidos deviam US$ 1,3 bilhão (R$ 6,4 bilhões) em contribuições anuais, sem incluir os valores destinados às missões de paz.
Em setembro, os Estados Unidos transferiram US$ 725 milhões (R$ 3,6 bilhões) referentes às contribuições regulares anuais. Também foram pagos US$ 102 milhões (R$ 508 milhões) destinados às missões de paz.
Donald Trump defendeu reformas profundas na ONU e afirmou que a organização deveria encerrar a agenda de burocratas globalistas não eleitos. O Departamento de Estado americano disse que novos repasses dependerão de progresso contínuo e mensurável nas reformas. A pasta também afirmou que os Estados Unidos continuarão verificando se os recursos são destinados a instituições consideradas antiamericanas ou contrárias à política externa do presidente.
Para Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais pelas universidades de Estrasburgo e Groningen, o governo americano usa os pagamentos e as ameaças de novos bloqueios para pressionar a organização. Na avaliação dele, a estratégia busca uma ONU menor e também enfraquece o multilateralismo.
Recursos para o Brasil
Apesar das restrições enfrentadas pelo ACNUR, os investimentos em iniciativas da ONU no Brasil cresceram de 2024 para 2025. No ano passado, foram aplicados US$ 213 milhões (R$ 1 bilhão) em ações no país, aumento de 37%. As Nações Unidas implementaram 338 iniciativas, com atividades nas áreas de saúde, assistência a pessoas em situação de rua, apoio a agricultores familiares e combate à pobreza.
O governo federal destinou US$ 106,1 milhões a ações de desenvolvimento sustentável e à implementação da Agenda 2030. Alemanha, Luxemburgo e Reino Unido também fizeram doações para programas da ONU no Brasil. A União Europeia destinou US$ 1,3 milhão ao país no ano passado, e o Canadá doou cerca de R$ 59 milhões ao Fundo Brasil-ONU para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia.
A trajetória de Delmany Rodrigues mostra o alcance que esse tipo de apoio pode ter. Ele chegou ao Rio de Janeiro aos 8 anos, depois de deixar Angola com a mãe e o irmão, em 1994. A família recebeu atendimento humanitário da Cáritas e do ACNUR, além de cestas básicas, material escolar, auxílio para aluguel, medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e cursos de qualificação.
Mais tarde, bolsas de estudo permitiram que Delmany cursasse Educação Física e Fisioterapia. Ele afirma que o auxílio recebido na infância foi decisivo para sua formação e para a abertura de uma clínica. Hoje, diante dos cortes, lamenta que outras famílias possam não encontrar o mesmo suporte.


