O número de brasileiros detidos pela imigração dos Estados Unidos mais que dobrou nos dois primeiros anos do governo de Donald Trump em comparação com os dois últimos anos da gestão de Joe Biden. Até agosto de 2026, 3.650 brasileiros haviam sido presos pelo ICE, com pico de 709 detenções em julho.
Os registros mostram que seis em cada dez brasileiros detidos são deportados. Em média, a decisão judicial sobre o caso ocorre 37 dias após a apreensão. O prazo era de 161 dias em 2024, último ano do governo Biden.
Perfil das detenções
Quase 60% dos brasileiros presos pelo ICE nos últimos dois anos não foram acusados formalmente de crime. A permanência nos Estados Unidos sem visto válido é considerada uma infração civil, e não penal. Outros 30% respondem a acusações criminais sem sentença, enquanto os 10% restantes já foram considerados culpados.
A base pública não detalha os crimes atribuídos aos brasileiros. Pessoas que acompanham os casos afirmam que acusações relacionadas ao tráfico de drogas e à violência contra a mulher estão entre as mais comuns.
As detenções se concentram na Costa Leste dos Estados Unidos, sobretudo em Massachusetts, Flórida, Nova Jersey, Pensilvânia e Nova York. A idade média dos presos é de 34 anos. Nos últimos quatro anos, 75% eram homens; durante o governo Trump, a proporção subiu para 80%.
Para Julio D’Angelo Davies, antropólogo e coordenador do projeto responsável pela organização dos dados, o perfil indica prioridade à deportação de homens adultos que muitas vezes são os provedores do lar. Depois da deportação, mulheres e crianças podem buscar a autodeportação para se reunir com o familiar no Brasil, embora esses casos não sejam contabilizados.
Prazos e liberdade condicional
Cerca de 30% dos detidos neste ano permanecem em liberdade condicional enquanto aguardam decisão judicial. A medida pode incluir monitoramento por tornozeleira eletrônica ou apresentação mensal à Justiça. O aumento dessa proporção ocorreu em 2026, ano recorde de detenções de imigrantes, e desafia a capacidade do sistema prisional.
O imigrante pode pedir habeas corpus para responder em liberdade ou solicitar o retorno voluntário ao país. A busca pela saída voluntária cresceu nos últimos três meses, conforme autoridades ouvidas sobre os casos.
Crianças e outras detenções
Nos dois primeiros anos do governo Trump, 569 crianças brasileiras foram presas. Nos dois últimos anos de Biden, foram 625 menores de idade. Em geral, elas são levadas com os pais, sob a justificativa de que ficariam sozinhas, e liberadas poucas horas ou dias depois, sem passar pelas prisões de longa permanência do ICE.
Os dados foram organizados pelo Observatório das Deportações, ligado à Universidade Estadual de Montes Claros, em Minas Gerais. O Deportation Data Project obteve as informações em um pedido ao ICE baseado na lei americana de acesso à informação. O levantamento reúne 2023 e 2024, os dois últimos anos de Biden, e 2025 e 2026, os dois primeiros do segundo mandato de Trump. Os dados de 2026 estão disponíveis até agosto e ainda são incompletos.
A quantidade real de brasileiros detidos é maior porque o levantamento considera apenas apreensões do ICE. Entre janeiro e maio, 176 brasileiros foram detidos pelo CBP na fronteira com o México. No mesmo período de 2024, foram mais de 10,7 mil. De janeiro a maio, em 2024, a maioria dos brasileiros capturados na fronteira era liberada sob o chamado “parole”, autorização temporária de entrada e permanência.


