A eleição presidencial brasileira coloca em disputa não apenas o quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, mas também o alcance da estratégia de Donald Trump para a América Latina. O presidente americano vem ampliando sua atuação na região, com apoio a candidatos de direita, tarifas, sanções e iniciativas voltadas à segurança e ao combate ao narcotráfico.
Lula enfrenta o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Uma vitória de Flávio consolidaria a aproximação entre o Brasil e o governo republicano, além de reforçar a onda recente de vitórias conservadoras na região. Para o analista político Brian Winter, o Brasil é o principal prêmio dessa disputa e tem importância pessoal para Trump por causa da relação do presidente americano com a família Bolsonaro.
Caso Lula vença, o resultado fortaleceria sua posição como uma figura histórica da esquerda no Sul Global e poderia provocar uma reação negativa da Casa Branca. Winter avalia que o governo americano provavelmente buscaria depois um entendimento pragmático com o presidente brasileiro, apesar dos altos e baixos na relação entre os dois.
Trump não declarou apoio público a nenhum dos candidatos brasileiros. Na sexta (2), ao ser questionado sobre uma eventual manifestação favorável a Bolsonaro, disse que acompanha a eleição de perto. Em outra declaração, afirmou: “É uma eleição muito importante”. As falas ocorreram em meio ao receio do governo brasileiro de uma possível interferência americana no processo eleitoral.
A agenda de segurança
A política de Trump para o continente inclui a chamada nova guerra às drogas e o Escudo das Américas, criado para ampliar a cooperação, a segurança e o combate ao narcotráfico. O Brasil não participa da iniciativa, mas a expectativa é de que pudesse ingressar no grupo sob um eventual governo Bolsonaro.
O governo americano também classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, apesar da oposição do governo Lula. Para Carlos Gustavo Poggio, especialista em relações Brasil-EUA, a inclusão de cartéis e facções nessa categoria permite o uso de ferramentas militares.
A segurança pública aparece como uma questão central porque eleitores de vários países latino-americanos demonstram insatisfação com a violência e com a atuação dos governos de esquerda. O cientista político Edgar Franco-Vivanco afirma que candidatos de direita ganham vantagem ao prometer respostas para o problema. Nayib Bukele, presidente de El Salvador, é citado como um exemplo de líder eleito com a promessa de combater a criminalidade, embora seja alvo de críticas por supostos abusos de direitos humanos.
Pressão sobre o Brasil
Desde o início de seu segundo mandato, em janeiro do ano passado, Trump declarou apoio a candidatos de direita em diferentes países. Entre os exemplos estão Abelardo De La Espriella, eleito em junho na Colômbia, e Nasry Asfura, vencedor da eleição do ano passado em Honduras. Na Argentina, a coalizão de Javier Milei venceu as eleições legislativas do ano passado depois de Trump sugerir que o auxílio financeiro ao país dependeria do resultado nas urnas.
Bolívia, Chile, Costa Rica, Equador e Peru também tiveram eleições presidenciais recentes vencidas por candidatos conservadores. Analistas, porém, observam que as oscilações entre a direita e a esquerda são recorrentes na América Latina. A insatisfação com os governantes em exercício pode ter peso maior que a identificação ideológica, segundo Poggio.
No caso brasileiro, os Estados Unidos adotaram no ano passado tarifas sobre produtos do país e sanções contra autoridades, incluindo Alexandre de Moraes, ministro do Supremo Tribunal Federal. As medidas foram apresentadas como resposta à “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Depois de uma redução das tarifas e sanções no fim do ano passado, os Estados Unidos voltaram a impor novas tarifas neste ano, enquanto autoridades dos dois países tiveram vistos negados ou revogados.
Lula esteve em Washington, e Flávio Bolsonaro também foi recebido por Trump na Casa Branca. Na sequência dessa visita, foi anunciada a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas, medida defendida pelo senador.
Para Brian Winter, uma vitória de Bolsonaro representaria a consolidação de líderes alinhados a Trump no maior país da região. Franco-Vivanco afirma que o governo americano prefere esse resultado pela proximidade política entre os dois, mas ressalta que não houve apoio direto até agora.
A reação de Lula às ações americanas tem sido centrada na defesa da soberania. Pesquisas e analistas indicam que as medidas adotadas por Trump podem ter beneficiado mais o presidente brasileiro do que seu adversário. Poggio resume o risco para o governo americano: “Qualquer declaração mais forte de Trump, o tiro pode sair pela culatra”.


