A Coreia do Norte pode ampliar sua participação na guerra entre Rússia e Ucrânia depois de enviar tropas para a região russa de Kursk no final de 2024. O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, afirmou em agosto que até 50 mil militares norte-coreanos serão destacados para a Rússia, revisando uma estimativa anterior de 30 mil soldados.
A Diretoria Central de Inteligência do Ministério da Defesa da Ucrânia (HUR) calcula que 8,5 mil militares norte-coreanos ainda estejam em território russo. Eles foram organizados em quatro brigadas do Grupo de Forças Norte e têm a missão de proteger a fronteira russa em Kursk contra incursões ucranianas. A HUR declarou que não observou unidades do Exército Popular Coreano em territórios ucranianos ocupados e que os militares não participam de operações ativas de combate.
A experiência em Kursk
A Coreia do Norte havia enviado 13 mil soldados para ajudar a Rússia a repelir uma ofensiva ucraniana. Até 3 mil morreram em combate. Depois de modificar suas táticas, as tropas norte-coreanas participaram da retirada das forças ucranianas de Kursk.
O pesquisador Yang Uk, do Centro de Política Externa e Segurança Nacional do Instituto Asan, em Seul, afirmou que os soldados ainda estão na Rússia. Segundo ele, eles defendem o território russo, enquanto parte das equipes de engenheiros ou trabalhadores pode estar na região de Donbas, ocupada pela Rússia.
Os militares pertencem ao Storm Corps, tropa de elite das Forças Armadas norte-coreanas. O soldado ucraniano identificado como Sultão, da 95ª Brigada de Ataque Aéreo, relatou que os norte-coreanos avançavam em grandes grupos e recebiam reforços de 15 a 20 homens para a mesma posição. Ele também descreveu falhas de comunicação com os russos e equipamentos inadequados.
A análise de um memorial feita pela BBC News Coreia calculou 2,3 mil mortes norte-coreanas na operação. A HUR estima 3 mil mortos e 1,5 mil feridos. Em abril de 2025, Kim Jong-un homenageou soldados que escolheram a autodetonação e ataques suicidas para evitar a captura.
Ganhos para Pyongyang
Para o pesquisador sênior Lim Soo-ho, do Instituto de Estratégias de Segurança Nacional, em Seul, a operação trouxe vantagens econômicas e políticas à Coreia do Norte. Ele calcula que as vendas de armas à Rússia e o envio de tropas tenham gerado cerca de US$ 10 bilhões, aproximadamente R$ 51,5 bilhões.
Lim afirmou que o Produto Interno Bruto anual norte-coreano é calculado em cerca de US$ 30 bilhões, ou R$ 155 bilhões. Nesse cálculo, as exportações de armas e o destacamento militar equivaleriam a um terço do PIB anual em dois anos e meio. Em troca, Pyongyang recebe alimentos, petróleo e moeda estrangeira.
A cooperação também reduziu a dependência histórica da Coreia do Norte em relação à China. Em setembro do ano passado, Kim Jong-un apareceu em Pequim ao lado de Xi Jinping e Vladimir Putin, na primeira reunião pública dos três líderes.
Possível nova mobilização
Zelensky declarou que preparativos para receber novos soldados norte-coreanos estavam em andamento desde junho na região russa de Voronezh. Em julho, ele também disse que a Rússia ajudava Pyongyang a aprimorar armas e a obter experiência de combate, além de afirmar que a Coreia do Norte se preparava para transferir novas armas balísticas.
A Ucrânia capturou vivos apenas dois soldados norte-coreanos. Um terceiro morreu em decorrência de ferimentos, segundo o Serviço Nacional de Inteligência da Coreia do Sul. Os dois capturados afirmaram que não queriam retornar à Coreia do Norte e desejavam ser enviados à Coreia do Sul. O destino deles ainda não foi decidido.
A Rússia pediu o retorno dos militares, mas Pyongyang não fez o mesmo. Kiev declarou que seguirá as obrigações previstas no direito internacional humanitário, que impedem a repatriação forçada de prisioneiros de guerra.
A colaboração continua relevante para os dois governos. Agências de inteligência ucranianas e ocidentais calculam que a Rússia perca mensalmente cerca de 6 mil soldados a mais do que consegue recrutar. Por isso, Moscou recorre a combatentes estrangeiros, inclusive da Colômbia, do Quênia, de Camarões e da Coreia do Norte.


