A existência da chamada “casa das irmãs” não foi confirmada pelas autoridades sírias nem por agências de checagem. O Ministério de Assuntos Sociais informou que não concedeu licença a nenhuma instituição com esse nome e que centros sem autorização seriam fechados. Imagens divulgadas como sendo do local foram identificadas como criações de inteligência artificial pela Verify-Sy.
O rumor ganhou força após o desaparecimento de Batoul Alloush, estudante universitária alauita de 21 anos. Ela voltou a aparecer usando trajes religiosos e disse que havia deixado a família para se converter ao islamismo. Os pais, porém, afirmaram que a jovem poderia ter sido drogada ou obrigada a agir contra a própria vontade.
Relatos diferentes sobre mulheres desaparecidas
Reham Suleiman, psicóloga que atua com as Nações Unidas e com a comunidade alauita, afirmou ter conhecimento direto de vários casos de sequestro. Segundo ela, algumas mulheres teriam sido capturadas para a cobrança de resgate, por vingança ou para serem forçadas a se casar.
Outros episódios tiveram desfechos distintos. Algumas mulheres disseram que estavam visitando amigos, tentando escapar da família ou que haviam fugido com um parceiro. A própria Alloush declarou que queria se converter e deixar os parentes.
Uma mulher alauita que vivia em Damasco contou que deixou a Síria com a família depois que um desconhecido ameaçou levar sua filha à “casa das irmãs” caso ela continuasse tendo aulas de piano e dança. A família agora está no Líbano. Ela disse que temia que os filhos crescessem naquele ambiente.
Disputa política nas redes
A Verify-Sy afirmou que circulam diariamente alegações não comprovadas sobre sequestros, assassinatos, prisões e tortura. A organização disse que a checagem é dificultada pela escassez e pela contradição das evidências disponíveis.
O Mecanismo de Investigação Sírio, entidade privada fundada em maio de 2026, associou o suposto local a uma organização muçulmana dedicada ao proselitismo. Seu diretor, Yasir Saleti, afirmou em uma entrevista no YouTube que haveria evidências de “engenharia demográfica”. A entidade não respondeu a pedidos de comentários.
A União dos Alauitas Sírios na Europa também divulgou publicações sobre o caso. Muaiad Ibrahim, identificado em documentos judiciais como vice-diretor da organização, critica o governo sírio e declarou apoio a Ahmed Hassoun, que foi condenado à prisão perpétua no final de agosto por incitação à guerra civil e cumplicidade em homicídio doloso.
Para Gregory Waters, pesquisador sênior do Atlantic Council, a narrativa pode ser usada para ampliar o medo entre os alauitas e aprofundar a separação entre comunidades. Ele afirmou que a propaganda digital se apoia em acontecimentos reais e aumenta temores já existentes.
Economia como possível ponto de contato
Naseef Naeem, diretor de pesquisa da Fundação Candid, disse que o governo de Damasco está concentrado na criação de instituições, no controle da segurança e na estabilização do país. Ele defendeu, mais adiante, um diálogo nacional entre os diferentes grupos comunitários.
Naeem e Waters apontaram a recuperação econômica como possível fator de aproximação. Waters citou o aumento do turismo no litoral sírio durante o verão, com a presença de visitantes locais, muitos deles sunitas, em áreas de maioria alauita. Segundo ele, amigos relataram que não houve assédio nem violência, enquanto autoridades deram prioridade ao setor turístico nas áreas costeiras.


