A Urbagestión Desarrollo e Inversión SL, também conhecida como Urbagesa, compra edifícios na Espanha, desocupa os imóveis e realiza reformas para aumentar seu valor. A empresa é proprietária do prédio em Madri onde Maricarmen Abascal, de 87 anos, morava havia 70 anos e foi despejada após uma disputa judicial.
O imóvel fica na rua Alcalde Sainz de Baranda, número 46, no bairro do Retiro, uma das áreas mais caras da capital espanhola. A comissão judiciária realizou o despejo na quarta-feira, depois que o tribunal decidiu a favor da empresa. Dezenas de ativistas tentaram impedir a medida, que estava em sua quarta tentativa. Uma força policial desmantelou um acampamento de cerca de 400 pessoas.
A ONU havia solicitado a suspensão do despejo e pedido às autoridades espanholas uma moradia alternativa adequada para Maricarmen. Koldo Casla, Relator Especial da ONU para o direito à habitação, afirmou que “O juiz deveria ter suspendido para evitar danos irreparáveis”. O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, classificou o caso como uma “tragédia” inaceitável.
Modelo de negócios
Constituída em outubro de 2005, durante o auge da bolha imobiliária espanhola, a Urbagestión oferece investimentos em imóveis comerciais, escritórios, unidades industriais, espaços logísticos, residências e terrenos. A empresa tem sede em Madri e uma filial em Valladolid, atua em todo o território nacional e conta com sete funcionários. Dados empresariais a classificam como uma microempresa.
A companhia está ligada aos empresários Ricardo Alonso Fernández e Fernando Alonso Fuentes, segundo dados da Axesor. Sua carteira inclui cerca de dez edifícios residenciais à venda, quase todos em Madri. Entre os imóveis está um prédio próximo à Gran Vía, descrito como vazio e destinado a reforma, com preço superior a US$ 14 milhões. Em outro edifício, localizado no centro da capital, a empresa informa haver inquilinos e afirma que os contratos terminariam no ano que vem ou não seriam de longa duração.
O contrato de Maricarmen
O edifício onde Maricarmen vivia foi comprado em 2018 pela Renta Corporación. A empresa ofereceu à idosa a possibilidade de comprar o apartamento por cerca de US$ 290 mil, valor incompatível com sua aposentadoria, que não ultrapassa US$ 1.500.
Dois anos depois, a Urbagestión adquiriu o prédio da Renta Corporación e passou a cobrar cerca de US$ 3 mil de aluguel. Maricarmen pagava US$ 570 por mês em razão de um contrato assinado por seus pais em 1956. Esse tipo de contrato, firmado durante a ditadura franquista, entre 1939 e 1975, seguia regras especiais sobre aluguel e transferência dos direitos aos familiares.
A empresa sustentou que o contrato havia expirado e exigiu a atualização do valor. O aluguel pago por Maricarmen era inferior à média da região, o que reduzia a rentabilidade do imóvel para o proprietário.
Despejos e mercado imobiliário
Segundo o Conselho Geral do Poder Judicial, foram realizadas mais de 25 mil desocupações em 2025. O aumento dos aluguéis na Espanha é associado à escassez de oferta, ao crescimento populacional nas principais capitais e à expansão de apartamentos destinados a locações turísticas de curta duração.
A Urbagestión afirma ser uma empresa de pequeno porte e rejeita a comparação com fundos de investimento. Especialistas, porém, apontam que seu modelo — identificar ativos, comprá-los, reformá-los e vendê-los por preço maior — segue uma lógica semelhante à desses fundos.
Empresas como Blackstone, Cerberus e Goldman Sachs ampliaram sua presença no mercado espanhol nas últimas duas décadas. Raymond Torres, do Funcas, disse que a demanda elevada torna o país atraente para investidores, porque há expectativa de venda dos imóveis e de alta contínua dos preços.
Os preços da moradia sobem há 12 anos consecutivos, e o ritmo de aumento se intensificou. Especialistas relacionam o encarecimento ao risco de despejo entre inquilinos vulneráveis, embora também citem fatores legais, econômicos e sociais.
A ministra da Habitação, Isabel Rodríguez, afirmou que o governo de coalizão de esquerda tentou aprovar uma lei contra esse tipo de despejo e acusou a Comunidade de Madri de favorecer especuladores. Maricarmen está no hospital e deverá morar com parentes. O apartamento permanece vazio, com seus pertences no interior.


