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Saúde

Por que a vingança pode prender a pessoa à própria dor

Especialistas afirmam que transformar a revanche em objetivo central dificulta o luto, bloqueia o presente e não repara o que foi perdido.

Por que a vingança pode prender a pessoa à própria dor
Foto: Divulgação Globo

A vingança pode oferecer uma sensação imediata de recompensa, mas tende a manter a pessoa ligada à injustiça e ao sofrimento que deseja superar. Análises da filosofia, da psicanálise e da ciência indicam que a dedicação contínua à revanche pode impedir a elaboração das perdas e atingir pessoas que não participaram do conflito.

Na novela “Quem Ama Cuida”, da Globo, Adriana, personagem de Letícia Colin, ficou seis anos presa por um crime que não cometeu. Depois de conseguir liberdade condicional, ela passou a executar um plano de vingança elaborado durante o período na prisão. Na ficção, a queda dos vilões aparece como possibilidade de redenção. Fora dela, especialistas descrevem outro percurso.

Quando a injustiça passa a organizar a vida

O filósofo e professor Renato Noguera afirma que a raiva diante de uma injustiça grave é uma reação humana compreensível. A busca por justiça, segundo ele, envolve reconhecer o dano, responsabilizar quem o causou e procurar alguma forma de reparação. O problema surge quando o desejo de fazer mal ao agressor passa a comandar todas as ações.

Autor de “Medo e raiva: O que os mitos e as filosofias revelam sobre nossos afetos sombrios”, Noguera define esse estado como uma forma de obsessão. A satisfação obtida com a execução da revanche não devolve aquilo que foi perdido. Com base na filosofia dos afetos de Baruch Espinoza (1632-1677), ele afirma: “A dor do outro não pode ser fiadora permanente da nossa alegria.”

Para a psicanalista e escritora Maria Homem, a vingança também pode funcionar como fuga. Em vez de enfrentar perdas como o amor, o casamento, a estabilidade ou uma vida desestruturada, a pessoa concentra sua atenção no algoz. A rotina, os horários e as fragilidades do outro passam a dar estrutura ao cotidiano, criando uma sensação enganosa de propósito.

Abandonar a revanche, nessa situação, significaria encarar o vazio e a dor da perda. Por isso, a pessoa permanece presa ao ressentimento, mesmo quando o plano não produz a satisfação esperada.

O circuito cerebral da revanche

Uma pesquisa da Escola de Medicina de Yale, de 2025, mostrou que a percepção de humilhação ou injustiça ativa a rede primária de dor no cérebro, especialmente o córtex insular anterior. A imaginação de devolver o sofrimento ao agressor aciona circuitos ligados ao prazer, à recompensa e à dopamina.

James Kimmel, professor de psiquiatria, fundador do Centro de Estudos de Controle de Motivação de Yale e autor de “The Science of Revenge” (“A Ciência da Vingança”, em português), compara esse processo ao observado na dependência química. O desejo de revanche estimula uma neurocircuitaria associada a prazer e fissura.

O ressentimento prolongado reduz a capacidade de se concentrar no presente e seguir adiante. Para interromper o ciclo, a neurociência aponta a necessidade de reativar o córtex pré-frontal executivo, relacionado ao autocontrole, à tomada de decisões e à avaliação de consequências de longo prazo.

Um estudo da Virginia Commonwealth University, de 2021, com 1.500 voluntários, mostrou que 58% preferem uma retaliação imediata, motivados pelo impulso de dar uma lição rápida ao oponente. Para o professor David Chester, a revanche planejada de maneira lenta costuma aparecer em situações de provocações e ofensas graves que acumulam rancor.

O luto e a possibilidade de seguir

Maria Homem afirma que a punição delegada ao Estado e à Justiça foi criada para reduzir a violência pessoal. Quando a confiança nessas instituições entra em crise, porém, as pessoas podem retornar a uma lógica individual de vingança e a formas primitivas de reparação, como a lei do “olho por olho”.

Segundo a psicanalista, superar essa dinâmica exige dois movimentos de luto. O primeiro é se desapegar do que foi perdido, aceitando a ausência de algo positivo ou idealizado. O segundo é se afastar do agressor e abandonar a posição de vítima. O ódio e o desejo de vingança, afirma, podem surgir quando esses dois processos não conseguem ser realizados.

Noguera recomenda reconhecer a dor e a raiva sem transformá-las em ordens. Para ele, esses afetos devem ser escutados como sinais que ajudam a identificar o que foi violado, quais formas de proteção são necessárias e que reparação pode ser buscada.

“A ferida merece cuidado, e a injustiça exige resposta”, diz o filósofo. A vida de quem sofreu, acrescenta, não deveria ser definida exclusivamente pela injustiça.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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