A busca contínua pelas fórmulas mais eficazes pode tornar produtos, estratégias e ambientes mais eficientes, mas também mais previsíveis e semelhantes. É o que pesquisadores definem como hiperseleção em artigo publicado na revista científica Frontiers in Psychology.
O conceito descreve situações em que a concorrência se torna intensa e os participantes aprendem a identificar e aperfeiçoar características associadas ao sucesso. Essas características passam a ser repetidas, enquanto alternativas menos comprovadas são eliminadas.
Da música ao futebol
A música “Bohemian Rhapsody”, do Queen, lançada em 1975, é apresentada como contraste. Com quase seis minutos, a canção combina estilos diferentes e não segue a estrutura convencional de um sucesso pop. Hoje, porém, produtores e artistas podem ajustar duração, estrutura, ritmo, melodia e a velocidade até o refrão para aumentar as chances de desempenho comercial.
As plataformas de streaming ampliaram a disputa pela atenção. Nesse ambiente, cresce a pressão para reproduzir fórmulas já conhecidas, o que pode fazer com que muitas músicas soem parecidas.
O mesmo padrão aparece no futebol profissional. As equipes adotam táticas que demonstram bons resultados, e os adversários passam a imitá-las. O jogo fica mais sofisticado, mas os times também se aproximam na maneira de jogar, deixando menos espaço para o talento individual.
Na produção acadêmica, a concorrência por artigos publicados, citações e financiamento pode estimular pesquisas mais fáceis de realizar e com maior probabilidade de publicação. Ideias arriscadas, que podem fracassar mas também produzir avanços importantes, acabam recebendo menos espaço.
Nas cidades, lojas, restaurantes e empreendimentos comercialmente bem-sucedidos são copiados, enquanto outros desaparecem. Com isso, cidades distantes milhares de quilômetros podem reunir as mesmas lojas da Starbucks, da Apple e os mesmos shoppings de luxo.
Os custos da uniformização
A hiperseleção reduz a chamada variância adaptativa, entendida como a possibilidade de diferentes produtos, comportamentos e estratégias coexistirem, inclusive aqueles que não são os mais eficientes.
Essa diversidade também pode ter importância para a saúde e o bem-estar. O saneamento, os antibióticos e outros avanços reduziram as doenças infecciosas, mas o contato com uma variedade ampla de microrganismos participa do desenvolvimento do microbioma e do sistema imune. Ambientes excessivamente higienizados podem eliminar parte dessa diversidade microbiana.
No campo psicológico, ambientes planejados para reduzir riscos e ampliar conforto e conveniência podem limitar o contato com dificuldade, incerteza e fracasso. Essas experiências oferecem oportunidades para desenvolver habilidades de enfrentamento e resiliência. Quando são eliminadas, especialmente na infância, as pessoas podem ter mais dificuldade para lidar com situações semelhantes quando elas ocorrerem.
O papel da inteligência artificial
A inteligência artificial pode acelerar a hiperseleção ao analisar o comportamento de milhões de pessoas e identificar quais músicas, vídeos, produtos e conteúdos atraem mais atenção. A inteligência artificial generativa pode produzir grandes volumes de conteúdo baseados em padrões que já se mostraram eficazes.
Forma-se, assim, um ciclo: os sistemas identificam o que funciona, produzem ou recomendam mais conteúdos daquele tipo e usam os resultados para aperfeiçoar novas recomendações. Esse processo pode ocorrer sem que os seres humanos formulem diretamente a estratégia de sucesso.
Com a expansão da inteligência artificial para outras áreas, a homogeneização pode avançar em diferentes domínios. Mesmo com acesso a um volume sem precedentes de informações e conteúdos, as pessoas podem perceber maior semelhança entre entretenimento, notícias, conselhos e trabalhos criativos.
A proposta não é abandonar a otimização. Tornar os ambientes mais seguros, limpos e eficientes trouxe melhorias à vida humana. A recomendação é considerar também a preservação da variação adaptativa no planejamento de instituições, cidades e produtos.
Universidades poderiam reservar espaço para pesquisas arriscadas, e cidades poderiam manter negócios e espaços locais únicos, ainda que sejam menos eficientes do ponto de vista comercial. Também seria possível ampliar as oportunidades de exploração e de desenvolvimento de habilidades, sem tratar todo fracasso como algo a ser eliminado.


