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Ataques ao voto feminino avançam em redes e chegam ao debate político

Influenciadores questionam o sufrágio feminino, defendem submissão e associam o voto das mulheres a problemas sociais e políticos.

Ataques ao voto feminino avançam em redes e chegam ao debate político
Foto: Montagem/BBC

Mensagens contra o voto feminino deixaram de circular apenas em nichos da internet e passaram a aparecer em podcasts, redes sociais e círculos políticos conservadores no Brasil e nos Estados Unidos. Os conteúdos questionam a participação das mulheres nas eleições, atribuem a elas problemas da sociedade e defendem modelos em que a decisão política da família caberia ao homem.

A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que a simples proposta de retirar o direito de voto das mulheres é inconstitucional. Para ela, a Constituição teria de ser rasgada para que o sufrágio feminino fosse extinto. A ministra também disse que a democracia permite que as pessoas defendam até mesmo a mudança de direitos, desde que esses direitos permaneçam protegidos.

Influenciadores e podcasts

Entre os nomes associados a esse discurso está Renato Amoedo, conhecido como Renato 38ão. Ele afirma que sua conta no Instagram foi derrubada. Em uma publicação, criticou o voto de mulheres não casadas e defendeu que estudo e trabalho não deveriam ser prioridades femininas. Também relacionou a adoção do voto feminino ao surgimento do Estado do bem-estar social e disse que a mulher teria deixado de depender de maridos e pais.

Amoedo ainda afirmou que a função mais valiosa de uma mulher deveria ser gerar filhos e declarou não ver problemas em um casamento entre um homem de 50 anos e uma criança de oito, desde que houvesse concordância dos pais e dos envolvidos. Ele não concedeu entrevista.

O Redcast, podcast apresentado por Junior Masters, também abriga declarações sobre o tema. Ana Hering, integrante do Movimento Brasil Livre e candidata a deputada federal por São Paulo pelo Missão, afirmou no programa que o mundo começou a desandar quando as mulheres passaram a dar sua opinião. Depois, disse que se tratava de uma piada e que não defende o fim do voto feminino.

Masters afirmou que não é contra o voto feminino especificamente, mas contra o voto de forma geral. Em outro trecho, sustentou que o voto feminino seria um erro da democracia ocidental. Hering também declarou que as mulheres se interessariam menos por política e tenderiam a comprar discursos prontos.

A neurocientista Suzana Herculano-Houzel contestou a ideia de que homens e mulheres teriam cérebros estruturalmente associados, respectivamente, à análise e à empatia. Segundo ela, o cérebro dos dois sexos é essencialmente o mesmo, com diferenças específicas que não explicam a forma como as pessoas tomam decisões.

Mulheres contra o próprio voto

Fernanda Guardian, sócia de uma consultoria de investimentos e com 300 mil seguidores no Instagram, afirma que abriria mão do direito de votar. Ela também declarou que o voto feminino foi um erro e associou as escolhas eleitorais das mulheres à esquerda. Guardian mora em Miami e não quis comentar suas declarações.

Pietra Bertolazzi, que tem 1,3 milhão de seguidores, defende a submissão feminina ao homem. Ela afirmou ser contrária ao voto feminino ao defender uma monarquia e criticar o Estado moderno, mas depois disse que suas declarações foram interpretadas além do que pretendia. Bertolazzi também afirmou que muitas mulheres vivem uma falsa liberdade e uma ilusão de poder no sistema democrático.

Na esfera religiosa, o missionário Joffre Swait defende uma organização familiar em que o homem lidera e a mulher respeita o marido. Ele explicou que, em caso de divergência eleitoral, a decisão final seria dele. Swait divulga no Brasil as ideias do pastor americano Douglas Wilson, que defende o chamado voto familiar, no qual o voto representaria a família e a decisão caberia ao chefe da casa.

Propostas e reação institucional

Uma proposta de voto familiar aparece no sexto fascículo do Livro Amarelo, associado ao Missão, partido de Renan Santos e Ana Hering. O material afirma que a democracia familiar restauraria a família como célula política. A assessoria de Santos e o partido não responderam aos questionamentos sobre o conteúdo até a publicação do texto.

Renan Santos afirmou, em entrevista, que o voto familiar não está em seu programa e que o material reúne discussões temáticas e exercícios de imaginação política. O Missão também declarou que os fascículos têm caráter ensaístico e não constituem uma proposta programática.

Um grupo de deputadas federais pediu à Procuradoria Geral da República que apure se o conteúdo do Livro Amarelo e as declarações de Paulo Figueiredo tentam intimidar mulheres ou deslegitimar sua participação nas eleições. Figueiredo, ligado à família Bolsonaro, criticou o voto de mulheres, especialmente o de solteiras, e afirmou que as mais jovens votam cada vez mais na esquerda. Flávio Bolsonaro repudiou a declaração.

Para a historiadora e cientista política Tatiana Vargas-Maia, questionar o voto feminino significa atacar a própria democracia. Ela avalia que a repetição desse discurso pode naturalizar a ideia de que o regime democrático não funciona e reabrir a discussão sobre a distribuição do poder entre homens e mulheres.

Cármen Lúcia afirmou que a retirada da mulher do processo decisório imporia um ônus para toda a sociedade. A ministra defendeu vigilância permanente para preservar direitos fundamentais e disse que os ataques podem refletir a incapacidade de alguns de convencer os eleitores.

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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