UBERLÂNDIA — A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito reúne 24 ternos na festa do Congado, que completa 150 anos neste final de semana. Cada grupo mantém organização própria, mas todos integram uma estrutura de funções e hierarquias transmitida dentro da comunidade congadeira.
A instituição representa os ternos, apoia as celebrações religiosas, preserva tradições afro-brasileiras e cuida da Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito. A celebração ocorre na primeira quinzena de outubro.
Uma festa organizada por funções
Os ternos não são divididos em alas, como ocorre nas escolas de samba. A estrutura segue uma hierarquia tradicional formada por bandeireiras, madrinhas, soldados, capitães, generais e guardinhas. O reinado também ocupa posição central: rei e rainha participam dos cortejos e de cerimônias religiosas ligadas à ancestralidade e à tradição afro-brasileira.
Em Uberlândia, tanto o casal do Reinado Perpétuo quanto os casais dos Reinados Festeiros escolhidos anualmente pertencem à comunidade do Congado.
Capitães e madrinhas lideram os grupos, orientam os integrantes, conduzem cantos e coordenam movimentos e ritmos. Também ajudam a transmitir os conhecimentos do terno. Dependendo da festa, uma pessoa pode representar e orientar o conjunto dos ternos, organizar cortejos, receber guardas e conduzir momentos coletivos.
Os caixeiros e outros instrumentistas acompanham os cortejos com instrumentos de percussão, como caixas, ou de harmonia, conforme o estilo de cada grupo. Os dançadores, também chamados de soldados, formam as fileiras, executam movimentos coreográficos e acompanham os cantos. Em algumas guardas, usam bastões ou outros elementos característicos.
A guia é a bandeira que vai à frente dos ternos e orienta o caminho. Os portadores de estandartes carregam o símbolo que identifica o grupo ou apresenta a imagem do santo de devoção. Em alguns ternos, integrantes experientes auxiliam na condução dos movimentos e ritmos, com função e nome que podem variar entre os grupos.
Grupos e regras da irmandade
Congada é o termo usado para os festejos; Congado designa o conjunto de expressões religiosas e culturais ligadas à tradição de matriz africana. A origem de cada terno está relacionada a contextos e necessidades específicas da comunidade, o que faz com que os grupos tenham histórias próprias.
O Sainha, formado em 1888, é o terno mais antigo de Uberlândia. O Moçambique Quilombo dos Palmares, de 2007, foi incorporado à irmandade em 2017. Também estão entre os grupos mais recentes o Catupé do Mansour e o Moçambique Quilombo dos Palmares.
Uma pessoa pode fundar um terno quando tem reconhecimento por sua trajetória religiosa e cultural no Congado. Para se filiar à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito, é necessário cumprir as exigências do estatuto e do regimento, além de obter aprovação da assembleia geral. Desde 2021, a entrada de novos ternos está suspensa e permanecerá assim até 2042.
A irmandade reúne grupos de Congo, Moçambique, Catupé, Marujos e Marinheiros. A organização dos ternos permanece sob responsabilidade de cada grupo, enquanto a instituição atua como representante do conjunto.
Mudança da data e transmissão do conhecimento
A festa era realizada originalmente em novembro. A mudança ocorreu depois do fim da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos e da festa da padroeira, que era realizada em 7 de outubro. O padre Marcelo Augelo, então pároco da Catedral de Santa Teresinha, propôs a transferência para outubro. A alteração foi aprovada pela assembleia da irmandade em data não informada.
A instituição tem origem na organização de pessoas negras que, ainda no século XIX, promoviam festas do Congado e a devoção a Nossa Senhora do Rosário. Oficializada em 1916, também atua na preservação da memória e da identidade cultural dessas comunidades.
O historiador e pesquisador Jeremias Brasileiro ocupa há duas décadas a função de general da festa. Ele atua como comandante-geral e orador, recebe na Igreja do Rosário as bandeiras dos grupos participantes e mantém uma tradição relacionada às antigas representações dos reinos do Congo e de Angola.
Jeremias chegou a Uberlândia em 1974 e se aproximou da festa em 1985. Nos anos 2000, passou a conversar com Tio Cândido e Adenir Nascimento, que lhe transmitiram conhecimentos. Sobre a preparação de novos responsáveis pela função, afirmou: “Eu não sabia, mas eles estavam me preparando para essa função.”
A sucessão ocorre pelo convívio e pelos ensinamentos dos mais velhos. Jeremias disse que já trabalha na preparação das futuras gerações. Entre os possíveis sucessores, está Aliester, tataraneto de Teófilo Nascimento, comandante em 1930.


