A Argentina passou a depender de novos socorros externos para sustentar o peso durante o governo de Javier Milei, enquanto a economia perdeu renda, empregos e investimento. O país deve hoje US$ 57 bilhões ao FMI (Fundo Monetário Internacional), soma que inclui empréstimos recentes e valores recordes tomados em 2018 e 2019.
A fragilidade do modelo ficou evidente em 2025, quando ocorreram duas corridas contra o peso. Em abril, o FMI anunciou um empréstimo de US$ 20 bilhões, dos quais US$ 15 bilhões já haviam sido desembolsados. Nas semanas anteriores às eleições legislativas de outubro, o Tesouro dos Estados Unidos interveio para sustentar o câmbio.
Sem o apoio externo, o peso teria se desvalorizado e a inflação poderia voltar a subir. As intervenções ampliaram os compromissos financeiros internacionais da Argentina e aumentaram sua dependência do governo dos Estados Unidos.
Inflação menor, mas longe de ser controlada
A inflação argentina, que havia chegado a 211% em 2023, recuou durante o governo Milei, mas não atingiu a meta anunciada pelo presidente. A taxa acumulada em 12 meses está em 33,5%, distante da promessa de que o índice mensal começaria com zero em meados de 2026, o que significaria uma taxa inferior a 1%.
A redução ocorreu, em parte, com a valorização do câmbio, sustentada pelo financiamento externo. O programa econômico também buscou eliminar rapidamente o déficit primário, reduzir a atuação do Estado e ampliar a desregulamentação.
O ajuste foi feito com cortes em infraestrutura, ciência e universidades públicas. A inflação também reduziu o valor real das aposentadorias e dos salários do setor público. Ao mesmo tempo, o governo diminuiu impostos dos mais ricos e concedeu benefícios fiscais a grandes investimentos, sobretudo no setor de commodities.
Efeitos sobre trabalho, crédito e atividade
Os salários reais caíram quase 8% desde a posse de Milei, enquanto o desemprego subiu de 5,7% para 7,9%. A informalidade aumentou com a migração de trabalhadores desempregados para postos de baixa remuneração no setor de serviços.
A perda de renda elevou a dificuldade das famílias para pagar dívidas. A inadimplência chegou a 12,8% dos empréstimos bancários às famílias, ante 4,5% um ano antes. O percentual corresponde a 6 milhões de argentinos, mais de um quarto dos tomadores de crédito, e representa o maior nível de aperto financeiro das famílias desde o início da série compilada pelo Banco Central.
O investimento recuou 11,1% no segundo trimestre, na comparação com o mesmo período do ano anterior. O consumo também caiu, e a retração do crédito em termos reais levou o setor financeiro a reduzir suas atividades.
A economia encolheu 0,6% no segundo trimestre em relação ao primeiro. Em julho, a atividade econômica recuou 2,9% ante o mês anterior. O JPMorgan revisou para baixo a projeção de crescimento da Argentina para o ano, e uma nova contração do PIB no terceiro trimestre colocaria o país em recessão técnica.
Diferenças em relação ao Brasil
O campo bolsonarista apresenta a política de Milei como referência para o Brasil. A comparação, porém, considera situações econômicas diferentes. A inflação brasileira está em torno de 4,6%, enquanto a argentina enfrentava uma alta de preços muito mais elevada quando Milei foi eleito.
Além disso, a falta de espaço fiscal no Brasil decorre quase inteiramente do custo do serviço da dívida, próximo de 9% do PIB, associado aos juros reais elevados, e não do resultado primário. Por isso, a estratégia de deixar a inflação corroer o valor real dos gastos públicos não seria replicável em um ambiente de inflação baixa.
A prioridade do governo Lula é elevar a renda real dos trabalhadores, criar empregos de melhor qualidade e reduzir os juros o suficiente para estabilizar a relação entre dívida e PIB. A expectativa é abrir espaço para o aumento sustentado do investimento e ampliar a capacidade produtiva sem pressionar a inflação.
O Brasil não recorre ao FMI desde que quitou integralmente sua dívida, em 2005. A independência econômica obtida desde então é apresentada como uma condição a ser preservada. Para os autores, Brasil e Argentina deveriam buscar uma base produtiva mais diversificada e inovadora, em vez de uma economia dependente de commodities, com mercado interno em retração e maior dependência dos Estados Unidos.


