BRASÍLIA — Durante a abertura da 81ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), nesta terça-feira (22/9), Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil manterá sua soberania e que o país não se submeterá a interesses externos.
O presidente disse que a proximidade da América Latina e do Caribe com a maior potência militar do mundo é inevitável, especialmente diante do retorno de tendências hegemônicas. Para Lula, o Brasil precisa de parceiros comprometidos com o desenvolvimento, e divergências ideológicas não devem impedir a integração entre países vizinhos.
Democracia, tarifas e recursos estratégicos
Lula afirmou que a democracia voltou a ser colocada em questão após o processo de recuperação da vontade popular. Também criticou interferências externas em eleições, a divisão do mundo em zonas de influência e iniciativas voltadas ao controle de recursos estratégicos.
O presidente voltou a condenar as tarifas impostas pelo chefe de Estado norte-americano, Donald Trump. O governo federal levou o caso ao mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), classificando a decisão dos Estados Unidos como arbitrária e sem fundamento jurídico. “A OMC respira por aparelhos”, disse Lula.
Ao tratar da exploração de minerais críticos e terras raras, o presidente afirmou que as riquezas naturais pertencem ao povo brasileiro. Segundo ele, o acesso a esses recursos deverá ser acompanhado de geração de valor no território nacional, transferência de tecnologia e abastecimento de setores estratégicos.
O fundo que recebeu recursos da Vulcan Elements, fabricante norte-americana de ímãs de terras raras destinados principalmente aos setores de tecnologia e defesa, também foi mencionado no contexto da exploração mineral. A empresa mantém acordo de fornecimento com a Energy Fuels, que comprou, por US$ 27,5 milhões, um projeto de exploração de minerais pesados entre Prado e Caravelas, no sul da Bahia.
Tribunal Penal Internacional e segurança
Lula criticou as tentativas de enfraquecimento do Tribunal Penal Internacional (TPI) e mencionou os efeitos da guerra em Gaza. Ele afirmou que palestinos carregarão o trauma causado pelo genocídio praticado pelo governo de Netanyahu e também condenou os atos terroristas do Hamas contra civis israelenses.
O governo Trump anunciou, em 13 de julho, que pretende desmantelar a capacidade do TPI de operar e de processar militares ou autoridades norte-americanas. Em fevereiro, Trump havia imposto sanções a integrantes da corte. Entre as medidas avaliadas pelo Departamento de Justiça estão pressões para que outros países deixem o tribunal e a ampliação de sanções e restrições de visto contra juízes e funcionários.
Na área de segurança, o presidente disse ter apresentado a Trump uma proposta de cooperação contra o crime organizado. Lula afirmou que o governo não terceirizará a defesa das fronteiras e defendeu ações para interromper o fluxo de armas e dinheiro que abastece organizações criminosas.
Ele também citou a Lei Antifacção, que prevê penas maiores para o crime organizado do que as aplicadas ao terrorismo, e afirmou que corrupção e crime organizado caminham juntos. “Ninguém está acima da lei”, declarou.
Tecnologia e apostas
Lula defendeu a regulamentação das big techs e da inteligência artificial. Também criticou os chamados tecno-oligarcas, que, segundo ele, promovem uma expansão digital sem regras e transparência, à margem da ONU e do Painel Científico sobre Inteligência Artificial.
O presidente ainda criticou a indústria das BETs, que, em sua avaliação, transforma o vício em lucro e provoca endividamento e destruição de lares. Ao final, defendeu o PIX e afirmou que o Brasil não cederá às pressões de multinacionais interessadas em privatizar o sistema.


