Na abertura da Assembleia Geral da ONU, Luiz Inácio Lula da Silva associou a eleição brasileira a uma escolha entre democracia e autoritarismo e concentrou parte do discurso na defesa da soberania nacional. A fala também trouxe críticas indiretas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em temas como sanções, tarifas, guerra, saúde e regulação da inteligência artificial.
O pronunciamento durou quase 22 minutos, contra 18 minutos no ano passado. Lula afirmou que a votação de 4 de outubro definirá o presidente da República, os governadores estaduais e os representantes do Poder Legislativo, além do rumo político do país.
Críticas aos Estados Unidos
Sem citar Trump nominalmente na maior parte da fala, o presidente brasileiro criticou a interferência externa em eleições e rejeitou a possibilidade de pressão sobre instituições e empresas do país. "A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano", afirmou.
Lula também mencionou o conflito contra o Irã, a alta dos combustíveis e dos fertilizantes e a declaração feita por Trump, em abril, sobre a morte de uma civilização inteira. Na avaliação do presidente, ameaças de extinção não contribuem para a estabilidade no Oriente Médio.
A relatora especial da ONU Francesca Albanese foi citada por Lula ao defender que ela não seja silenciada. O presidente ainda condenou a perseguição a integrantes do Tribunal Penal Internacional, que foram alvo de sanções do governo Trump por suas ações relacionadas a Israel.
Ao abordar a América Latina e o Caribe, Lula fez referência à Doutrina Donroe e afirmou que o Brasil não se submete à hegemonia de outra potência. Ele também rejeitou o uso de tarifas como instrumento de coerção e criticou a oposição de Trump à regulação da inteligência artificial, atribuída a interesses de um grupo de tecno-oligarcas.
Na área da saúde, o discurso condenou campanhas contra vacinas incentivadas por Robert F. Kennedy, secretário de Saúde de Trump, e a saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde.
Segurança e disputa eleitoral
Em uma menção direta ao presidente americano, Lula defendeu a cooperação para conter o fluxo de armas e dinheiro ligado ao crime organizado, em vez da presença de porta-aviões nas águas brasileiras. A declaração ocorreu em meio à expectativa de sanções dos Estados Unidos contra bancos, empresas e indivíduos brasileiros acusados de envolvimento com organizações criminosas.
O discurso também apresentou Flávio Bolsonaro como um candidato associado a interesses estrangeiros contrários ao país. Lula disse que a eleição será transparente e competitiva e que todos os candidatos terão liberdade de expressão.
O presidente fez ainda uma referência indireta ao caso do Banco Master ao afirmar que crime organizado e corrupção caminham juntos e que o combate à corrupção continuará, sem distinção. Flávio Bolsonaro é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro desde julho, conforme as informações apresentadas no discurso e no contexto político mencionado.
Entre as pautas eleitorais citadas por Lula estão restrições a bets, a escala 6x1, a proteção do Pix, o processamento de minerais críticos com transferência de tecnologia para o Brasil, o ECA digital, o combate ao feminicídio, o reajuste do salário mínimo e a ampliação do crédito.
O argumento sobre o campo progressista
Apesar de defender seu projeto político, Lula reconheceu que governos e partidos progressistas enfrentam dificuldades para obter apoio popular e têm perdido eleições para líderes populistas de direita em diferentes partes do mundo.
O presidente afirmou que existe uma demanda legítima por mudanças, mas rejeitou a ideia de que mudar signifique retirar direitos, reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão feminina ou recolonizar o Sul Global. Para ele, a mudança deve representar avanço, participação e novas conquistas.


