A centralidade de Maria no catolicismo foi construída ao longo dos séculos por meio de dogmas, devoções e contatos com culturas que já atribuíam força religiosa a figuras femininas. Especialistas ouvidos no debate afirmam que esse processo não permite concluir que Maria seja uma deusa, mas reconhecem que ela passou a ocupar um espaço simbólico associado à proteção, à maternidade e ao mistério da vida.
A tradição cristã se formou em torno de referências masculinas: Jesus era homem, assim como os 12 apóstolos, enquanto Deus é descrito como pai, criador, senhor e rei. Nesse ambiente, Maria, apresentada nos textos bíblicos como a jovem nazarena que concebeu Jesus, ganhou importância por meio de formulações como a virgindade perpétua e o título de mãe de Deus.
Para Lucas Nascimento, linguista, palestrante evangélico, professor na UEFS e coordenador do Laboratório de Análise do Discurso e da Argumentação Religiosa, a devoção mariana pode ser analisada por perspectivas teológica, sociológica, psicológica e discursiva. Ele sustenta que a presença de Maria ajuda a responder a um desequilíbrio percebido em uma estrutura religiosa marcada pelo predomínio masculino.
Símbolos anteriores ao cristianismo
Na leitura psicológica apresentada por Nascimento, a figura de Maria se relaciona ao arquétipo da Grande Mãe, presente em tradições anteriores ao cristianismo. Ele menciona Ísis, no Egito; Ishtar, na Mesopotâmia; Cibele, na Frígia; e Deméter, na Grécia. Essas divindades eram ligadas à terra, à fertilidade, à proteção e aos ciclos da vida e da morte.
A antropóloga e historiadora Lidice Meyer, professora na Universidade Lusófona, em Portugal, afirma que representações artísticas desde o Paleolítico já aproximavam a religiosidade da figura materna. Para ela, a expansão do cristianismo entre povos politeístas favoreceu a associação de Maria a símbolos femininos já conhecidos.
Esse movimento ocorreu durante a cristianização e a incorporação cultural do Império Romano a partir do século 4º. Conforme Nascimento, quando o cristianismo deixou de ser perseguido e se tornou religião oficial, a Igreja passou a lidar com populações que mantinham devoções a divindades como Ísis, Cibele e Ártemis. Santuários, ritos e imagens teriam recebido novas interpretações vinculadas a Maria.
O professor também relaciona à iconografia mariana elementos como o manto azul, a lua aos pés, o cetro de rainha e a imagem da mãe que amamenta. Esses símbolos, segundo ele, foram incorporados à representação católica da santa.
Limites da comparação
O frade franciscano Maurício Solfa, filósofo, teólogo e psicanalista, afirma que Maria não é uma divindade. Na avaliação dele, a comparação pode ser feita no plano sociológico e simbólico, porque a santa passou a ocupar um espaço feminino que outras culturas haviam associado a figuras divinas.
Solfa, porém, rejeita a ideia de que a Igreja Católica simplesmente tenha transformado antigas deusas em Nossa Senhora. Para ele, a expansão cristã colocou Maria em contato com culturas dotadas de fortes arquétipos femininos, criando um ambiente simbólico favorável à sua devoção.
O teólogo e pastor luterano Valdir Steuernagel também ressalta que a tradição cristã não apresenta Maria como uma deidade feminina. Já Gerson Leite de Moraes, teólogo e historiador, professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, descreve a mudança como gradual e não planejada. Nesse processo, Maria passou a representar o feminino dentro de uma hierarquia religiosa dominada por homens, com uma imagem associada à maternidade.


