A falsa notícia de que Flávio Bolsonaro (PL) retiraria, se eleito, o título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida recolocou no debate político as diferenças entre evangélicos e católicos sobre a devoção à santa. A informação circulou nas redes sociais na sexta-feira (24), e a campanha do senador passou a tentar conter os danos.
A história foi explorada por aliados do presidente Lula (PT) e chegou ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e ao STF (Supremo Tribunal Federal). O vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), candidato à reeleição, afirmou no X que, enquanto ele e o petista governarem o país, as tradições religiosas “estarão protegidas e preservadas”. Fernando Haddad (PT), candidato a governador de São Paulo, ironizou o episódio depois de participar de uma missa.
Diferenças entre as tradições
O protestantismo reconhece a Virgem Maria como mãe de Jesus, mas não atribui a ela a mesma autoridade espiritual conferida pela Igreja Católica. Para os evangélicos, Maria é uma serva de Deus e não exerce o papel de intercessora diante de Jesus, porque a doutrina protestante não admite mediação entre Deus e o ser humano.
“Maria tem o seu lugar na tradição evangélica, como mãe de Jesus”, explica Magali Cunha, pesquisadora do Iser (Instituto de Estudos da Religião). Segundo ela, a tradição evangélica não a compreende como “mãe de Deus” nem como intercessora das pessoas diante do Filho de Deus.
A divergência remonta ao surgimento do movimento protestante, no século 16. Uma das referências está no livro de Êxodo, capítulo 20, na passagem sobre os 10 mandamentos, que proíbe outros deuses e a fabricação de esculturas para culto.
Na interpretação católica, essa proibição se refere à representação palpável de Deus como objeto de adoração, e não a imagens religiosas de anjos, pássaros ou santos. Para os evangélicos, os santos reconhecidos pelos católicos são cristãos que servem de exemplo de fé, e sua veneração é entendida como idolatria.
A discussão também recuperou um projeto apresentado em 2007 pelo pastor e então deputado Victorio Galli para retirar de Nossa Senhora o título de padroeira brasileira. A proposta foi arquivada em 2008. 11 anos depois, Galli tornou-se assessor do governo Jair Bolsonaro (PL).
O entorno de Flávio Bolsonaro teme que a repercussão produza efeito semelhante ao episódio conhecido como “chute na santa”. Em 1995, um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma estátua da padroeira e a insultou em um programa de televisão.


