Uma pesquisa feita na China, em Wenzhou, encontrou concentração de microplásticos suspensos oito vezes maior em ambientes internos do que em áreas externas. A comparação foi realizada em regiões urbanas e rurais e indica que a menor circulação de ar favorece o acúmulo dessas partículas dentro de construções.
Em residências, os microplásticos podem se depositar como poeira quando o imóvel permanece fechado. A movimentação faz com que parte do material volte a ficar suspensa. A concentração também pode mudar conforme a localização da casa e os hábitos de consumo dos moradores, explica Décio Semensatto, professor do departamento de Ciências Ambientais da Universidade Federal de São Paulo.
Roupas, produtos e materiais escolares
Uma pesquisa realizada na Holanda e publicada em agosto identificou cinco ou mais tipos de microplásticos em 75% das 105 casas analisadas. PET e PS, ou poliestireno, apareceram em quase todas as amostras.
Segundo Semensatto, tecidos sintéticos e produtos de higiene e beleza que contêm microplásticos podem levar essas partículas para dentro das casas. A troca de ar com o ambiente externo também permite a entrada do material. O desgaste entre roupas e tecidos libera fibras. “Na abrasão mecânica da vestir a roupa e do tecido um contra o outro, ele vai soltando esses fiapos, essas fibrinhas”, diz o professor.
No Brasil, Roberta Cerasi Urban, pesquisadora da Universidade Federal de São Carlos, e colegas examinaram uma antiga escola entre 2021 e 2022. Além das roupas sintéticas, materiais escolares foram identificados como fontes de microplásticos. O trabalho, publicado em 2023, registrou aumento da concentração durante a estação seca, associado à menor ventilação e ao uso de roupas de inverno.
Urban afirma que ainda existem poucos estudos brasileiros sobre a presença desses materiais em ambientes internos, principalmente em casas. Para ela, pesquisas locais devem ser estimuladas porque os resultados podem variar conforme a regulação de microplásticos e os hábitos de consumo em cada país.
Partículas menores e cuidados em casa
A palavra microplástico passou a ser usada em 2004 para designar pedaços de plástico com tamanho entre 1 micrômetro e 5 milímetros. A primeira evidência dessas partículas como poluentes surgiu no mar, nos anos 1970, quando eram chamadas de “esférulas”.
Os microplásticos podem entrar no organismo por inalação, ingestão e contato com a pele. Quanto menores, mais estruturas do corpo conseguem acessar. Uma pesquisa publicada na Plos One em 2025 encontrou partículas de até 10 micrômetros dentro de residências. Em carros, a concentração foi quatro vezes maior.
Para Maria Cristina Canela Gazotti, pesquisadora do laboratório de química da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, ventilar os ambientes pode ajudar a reduzir a concentração. A orientação depende da localização da residência: “Se você estiver, por exemplo, na Avenida Paulista, melhor não abrir a janela mesmo”, afirma. Nessa situação, a troca de ar pode ser feita à noite e em dias de menor movimento de carros.
A limpeza com aspirador de pó é outra recomendação. Modelos com filtro HEPA conseguem reter partículas menores, mas os filtros precisam ser limpos com frequência. Objetos plásticos amarelados ou esfarelando devem ser encaminhados para a reciclagem, pois esses sinais indicam deterioração do produto.


