A radicalização em plataformas digitais não depende apenas das escolhas individuais de quem participa de comunidades extremistas, segundo a antropóloga Letícia Cesarino. Para ela, o modelo de negócio das big techs, os algoritmos e os ambientes de socialização formam uma rede que pode atrair e conduzir pessoas ao extremismo, sobretudo crianças e adolescentes.
A análise está no livro Ecologias de Crise (Ubu), no qual Cesarino examina o percurso entre o recrutamento de novos integrantes e a prática de atos violentos. Nesse processo, o acolhimento oferecido pelas comunidades e a busca por excitação têm papel relevante, afirma a autora.
Da radicalização à violência
Cesarino contesta a ideia de que plataformas como o Discord sejam apenas instrumentos neutros, comparáveis a um carro. Na avaliação da antropóloga, esses serviços funcionam como ambientes que influenciam formas de socialização e identidades, além de moldarem e acelerarem dinâmicas que já existiam antes da internet.
A noção de ecologia de crise utilizada no livro se inspira no antropólogo britânico Gregory Bateson (1904-1980), ligado à teoria cibernética. O conceito descreve o extremismo como uma teia formada pela interação entre a estrutura econômica das plataformas, o funcionamento dos algoritmos e as trajetórias pessoais de quem se radicaliza.
Para a pesquisadora, uma nova inflexão desse processo aparece em correntes extremistas que não apresentam um projeto definido para o período posterior ao colapso social. Em vez de buscar a construção de uma nova ordem, parte desses grupos teria como horizonte acelerar o fim, com a violência convertida em objetivo.
Essa mudança também altera a forma dos ataques. A violência pode deixar o espaço público e ocorrer em ambientes privados, com a indução de uma pessoa a ferir a si mesma. Nesse contexto, a câmera, o filme e a transmissão da imagem assumem uma função central. O Discord ganhou destaque por ter sido usado para transmissões ao vivo desse tipo, substituindo o padrão anterior de ataques espetaculares em locais públicos.
Cesarino é professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Ela foi assessora do Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania em 2023 e 2024. Em 2022, publicou O Mundo do Avesso.


