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Rio Araguari muda de curso após avanço de valas e criação de búfalos no Amapá

O rio deixou de chegar ao Atlântico e passou a desembocar no Amazonas; a criação de búfalos é apontada como fator de aceleração da mudança.

Rio Araguari muda de curso após avanço de valas e criação de búfalos no Amapá
Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

O rio Araguari passou a desembocar no rio Amazonas, e não mais no oceano Atlântico. A mudança ocorreu em um intervalo de 15 anos e alterou a circulação pela planície alagável do leste do Amapá. O trecho próximo à antiga foz secou, enquanto valas abertas e ampliadas pela passagem de búfalos passaram a conduzir parte da água.

Cientistas, o Ministério Público Federal (MPF), o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e o plano de recursos hídricos do Governo do Amapá apontam a criação dos animais como um fator que acelerou a transformação. Hidrelétricas e mudanças naturais na planície amazônica também são citadas.

Criação dentro da área protegida

A Reserva Biológica do Lago Piratuba tem cerca de 25 mil búfalos, embora a atividade não seja permitida na unidade de conservação. Nas áreas da reserva e nas imediações, existem cerca de 40 fazendas com criação. Documentos usados pelo MPF para propor acordos com produtores registram a presença de empresários do Amapá entre os criadores.

A movimentação dos animais, muitas vezes em filas junto a cercas, provoca rasgos no solo. A água amplia essas aberturas, que se transformam em valas e podem alcançar mais de 1 km de largura. O principal caminho da água passou a ser a vala de Uricurituba, depois que o curso do Araguari foi desviado.

Aguinaldo Lopes da Silva, conhecido como Naldo Góes, tem sete fazendas em seu nome e cria mais de 6.000 búfalos dentro da reserva, conforme dados de vacinação do Governo do Amapá. Em ação na Justiça Federal, o MPF afirmou que ele cercou o leito seco do rio para ampliar a criação. A Justiça determinou, em maio, que os animais sejam retirados da área em um ano.

A família do prefeito de Cutias, Juscelino Rabelo Mourão Júnior (PL), também aparece em documentos do MPF como criadora de búfalos em fazendas na reserva. O prefeito foi autuado pelo ICMBio e teve áreas embargadas após a construção não autorizada de três imóveis de madeira.

Foz seca e mudanças na paisagem

A Fazenda Alegria, de Salomão Alcolumbre Júnior, fica próxima à linha demarcatória da reserva e à margem do Araguari. Pessoas da região estimam que entre 40 mil e 50 mil búfalos sejam criados no local, número que o proprietário não contestou. A quantidade equivale a 16% dos 312 mil animais estimados no Amapá.

Salomão afirmou que a seca da foz não pode ser atribuída de forma preponderante aos búfalos. Ele citou as três hidrelétricas do rio e defendeu um diagnóstico científico independente para avaliar a influência dos animais, das usinas e da dinâmica natural da região. Davi Alcolumbre declarou que não é proprietário, sócio ou coproprietário da Fazenda Alegria e que não cria búfalos no local.

O fim da foz também encerrou a pororoca. A última ocorreu no fim de 2013. Moradores relatam aumento da salinização da água, em uma região influenciada pelo ciclo das marés. O desbarrancamento provocado pelo alargamento das valas atingiu casas, igreja, campo de futebol, escola e posto de saúde na comunidade do Pracuúba, vizinha à Fazenda Alegria.

Imagens históricas usadas pelo MPF mostram 173 km2 do leito totalmente assoreados. A mudança também reduziu as possibilidades de deslocamento por água dentro da reserva. Para chegar à parte norte, já não é possível navegar pelo interior, diante da seca de parte do Araguari.

Na comunidade Bom Jesus do Araguari, também chamada Tabaco, muitos moradores foram embora. Eliane Gomes da Silva, 41, funcionária da escola local, disse: "Aqui era animado. Agora está acabado". Omercindo dos Reis, 74, que viveu na comunidade do Pracuúba, resumiu a transformação: "O Araguari era muito diferente".

Texto produzido pela Redação Caderno Atual com apoio de inteligência artificial a partir de fontes públicas, com revisão editorial. Erros? Fale conosco.

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