A percepção sobre a presença do Estado, mais do que a realização dos desejos de consumo, ajuda a explicar como segmentos populares se posicionam politicamente. A análise sobre as chamadas classes aspiracionais sustenta que parte dos brasileiros passou a desejar autonomia, conforto e reconhecimento, mas encontrou um mercado de trabalho marcado por precariedade e promessas individuais de prosperidade.
Esse processo criou uma divisão entre pessoas que associam suas conquistas à atuação contínua do Estado e aquelas que atribuem a própria trajetória apenas ao esforço pessoal. As primeiras tendem a rejeitar a extrema direita e a votar em Lula. As segundas podem considerar o Estado ausente, ineficiente e presente apenas para cobrar impostos, cenário explorado pelo bolsonarismo.
O crescimento das aspirações
A expansão da capacidade de sonhar é apresentada como parte do desenvolvimento social. À medida que os horizontes se ampliam, consumidores e trabalhadores passam a exigir mais e a buscar respostas políticas para avançar ou preservar o que conquistaram. Quando as expectativas não encontram correspondência na realidade, podem surgir frustração, ressentimento e radicalização.
No Brasil, esse movimento foi impulsionado pela teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais, nos anos 1990, e por políticas associadas aos governos do PT nos anos 2000. Entre os fatores citados estão a ampliação do crédito, a inclusão pelo consumo, a transferência de renda e as ações afirmativas. O empreendedorismo apareceu como elo entre discursos religiosos e governamentais, associado à autonomia, à ascensão individual e à prosperidade.
Entre 2009 e 2014, pesquisas sobre o consumo de classes populares de Porto Alegre registraram uma geração que passou a comprar produtos antes inacessíveis e a rejeitar restos e doações. O Bolsa Família e o crédito facilitaram o acesso às lojas. Para parte dessas pessoas, adquirir bens visíveis representava conquistar reconhecimento e ocupar espaços dos quais se sentiam excluídas.
Os rolezinhos de 2014 expressaram essa reivindicação de visibilidade e circulação em shopping centers. Depois de Junho de 2013 e com a crise econômica e política iniciada em 2014, parte dos jovens e de seus pais passou a associar suas frustrações ao partido que havia ampliado o acesso ao consumo. O estudo “Da Esperança ao Ódio” documentou a adesão de parte desses grupos ao bolsonarismo entre 2016 e 2018.
Do consumo à autonomia
Pesquisas com brasileiros, chineses, mexicanos e filipinos que saíram da pobreza, mas ainda não chegaram à classe média, identificaram desejos materiais e imateriais. Entre os sonhos mencionados estavam ter uma poupança, alcançar segurança financeira, alimentar-se melhor e viajar para destinos como Gramado, Salvador, Paris ou a Disney. Também apareceu a busca por países africanos ligados à própria ancestralidade.
A realização deixou de depender, em alguns casos, da exibição de roupas, celulares ou outros símbolos de prestígio. Jovens adultos passaram a planejar conquistas graduais, combinando políticas públicas e esforço pessoal. Para esses grupos, as mudanças entre gerações foram mais sustentáveis, e as escolhas políticas tenderam a rejeitar os extremismos.
Nos últimos cinco anos, porém, as redes sociais ampliaram as aspirações em contraste com as possibilidades concretas. Pessoas que vivem em casas sem reboco podem imaginar uma Ferrari; outras sonham com dezenas de milhões de reais, embora não tenham dinheiro para uma corrida de moto por aplicativo. O trabalho digital aparece como caminho para conforto e liberdade, mesmo quando a rotina inclui longas viagens em ônibus e trens e exposição a assaltos.
O empreendedorismo online é descrito como um trabalho aspiracional: uma promessa de renda e emancipação para quem ainda está distante da mobilidade social. Milhões tentam obter renda extra ou tornar-se influenciadores, enquanto coaches e influenciadores difundem a ideia de que o sucesso depende exclusivamente de disciplina, mentalidade e esforço.
Nos últimos três anos, foram acompanhados diariamente 700 influenciadores. Uma das mentorias analisadas afirmava reunir 90 mil pessoas de várias partes do mundo em torno de um suposto código de riqueza ligado a Elon Musk. Uma base de dados com quase 2 milhões de aspirantes a empreendedores digitais também mostrou a presença de trabalhadores com empregos formais mal remunerados, bicos e atividades precárias e plataformizadas.
A prosperidade desse segmento tem sido praticamente nula, embora a exceção seja apresentada como regra. Muitas pessoas continuam comprando mentorias e atribuem o fracasso a uma suposta deficiência individual. Entre elas estão mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada, para quem a renda digital e o home office aparecem como alternativas à precariedade.
O voto e a imagem do Estado
A busca por autonomia não significa necessariamente rejeição ao emprego formal. A carteira assinada continua sendo um desejo predominante, mas cresce a preferência pelo trabalho autônomo quando o emprego é associado a baixos salários, longas jornadas, ordens e falta de controle sobre o tempo. O desejo de ser patrão de si mesmo expressa procura por dignidade, descanso e respeito.
Esse conjunto de grupos é definido como autoritariado: frações das classes aspiracionais e pobres que aprenderam a se virar à margem do mercado formal e das proteções sociais. O conceito reúne pessoas alinhadas ao conservadorismo, ao autoritarismo e ao libertarianismo, que confiam no próprio esforço, desconfiam do Estado e, ao mesmo tempo, esperam uma autoridade capaz de combater privilégios.
O bolsonarismo se aproxima desse público ao exaltar o trabalho duro, criticar a tributação e defender a liberdade individual. Flávio Bolsonaro, do PL, concentra sua campanha em temas como poder de compra, endividamento, Estado taxador e violência. Pablo Marçal, do PRTB, e Augusto Cury, do Avante, também alcançaram eleitores a partir de um universo político digital ligado ao empreendedorismo, às terapias e à crença na força individual.
A percepção de merecimento tem papel central. Quem conquistou pouco mais pode tentar se afastar do estigma da pobreza atribuindo a própria posição ao esforço e responsabilizando pessoas ainda mais vulneráveis. As redes sociais ampliam os modelos de sucesso, mas a raiva se forma nas comparações cotidianas, inclusive com vizinhos que recebem políticas de transferência de renda.
O desafio para Lula e para o PT é dialogar com trabalhadores que desejam autonomia, mas não necessariamente identificam suas conquistas com a ação coletiva ou com a democracia. A tendência de rejeitar o Estado pode coexistir com o ressentimento pela sua ausência. Por isso, a resposta não se limita a reformular discursos: envolve desenhar políticas públicas capazes de preservar o desejo de autonomia e conforto e ampliar a proteção estatal em um mercado de trabalho cada vez mais pejotizado e plataformizado.


