SÃO PAULO — A implantação de uma Times Square em São Paulo segue incerta depois que a Justiça negou outro recurso. A proposta atual retoma uma presença norte-americana que aparece em diferentes momentos do desenvolvimento urbano paulistano, da expansão das avenidas à adoção de modelos de ocupação e consumo associados aos Estados Unidos.
A influência se consolidou especialmente no pós-guerra, quando os Estados Unidos já eram uma superpotência. Para pesquisadores, recorrer a referências daquele país também ajudava São Paulo a se projetar na disputa de influência com o Rio de Janeiro, então capital.
Arranha-céus, zoneamento e referências estrangeiras
Um dos símbolos desse período é o edifício Altino Arantes, hoje Farol Santander. Inaugurado oficialmente em 1947, o prédio foi inspirado no Empire State e se tornou o maior arranha-céu do país. A construção integra o conjunto de edifícios art déco do centro velho, ao lado de sedes do Banco de São Paulo e do Banco do Brasil.
A estética, marcada por linhas retas e menor ornamentação, estava em alta em Nova York nos anos 1920 e 1930. A cidade também serviu como referência para comparações com São Paulo. Bondes teriam circulado com o slogan “São Paulo, a Chicago da América do Sul”, enquanto Detroit aparecia em outras associações.
Sarah Feldman, professora aposentada do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP e pesquisadora de planejamento urbano, afirma que a Lei de Zoneamento foi concebida a partir de 1947 nos moldes norte-americanos. A proposta buscava garantir o valor econômico das propriedades, em contraste com a experiência alemã, de orientação mais social.
A adaptação local, porém, não reproduziu integralmente os modelos estrangeiros. No caso da Times Square paulistana, o foco está especialmente nos telões. Em Nova York, o espaço também é associado ao fortalecimento de teatros e cinemas e à restrição de carros em parte das quadras.
O papel de Robert Moses
A conexão mais direta entre a experiência norte-americana e o planejamento da cidade ocorreu nos anos 1950. Uma empresa do grupo Rockefeller foi contratada pela prefeitura e enviou a São Paulo Robert Moses, nome central da transformação de Nova York e defensor das vias expressas.
A visita resultou no Programa de Melhoramentos, relacionado a medidas executadas por diferentes prefeitos paulistanos ao longo dos anos. Entre elas estavam a urbanização das várzeas do rio Tietê, a expansão de viadutos e a abertura de vias expressas. Moses voltou outras vezes à capital paulista, em viagens acompanhadas pela imprensa.
Para Ana Elena Salvi, pesquisadora da influência norte-americana na transformação de São Paulo em metrópole, arquitetura e urbanismo integravam o peso cultural dos Estados Unidos na América Latina. Esses campos também ajudavam a exportar um modo de vida americanizado, ligado a interesses políticos e econômicos. “Deixou muito rastro”, afirma Salvi, coordenadora-geral de Arquitetura e Urbanismo e Design de Interiores da Unip.
Ela ressalva que alguns conceitos importados já eram estudados ou realizados de forma independente, como a retificação e o enterramento de rios.
A cidade orientada pelos automóveis
O planejamento voltado ao transporte sobre rodas é outra marca dessa aproximação. Durante décadas, avenidas, ruas e estradas foram vistas como alternativas mais flexíveis do que o transporte sobre trilhos. A urbanista Nadia Somekh, professora emérita da Mackenzie e referência nos estudos de verticalização, relaciona esse rodoviarismo ao avanço da indústria automobilística no país. “É uma cidade desenhada para os carros”, resume.
O Plano de Avenidas, implantado em parte pela gestão Prestes Maia a partir do fim da década de 1930, é o principal exemplo. Renato Leão, professor de história urbana na Universidade Estadual de Maringá, afirma que se dizia que governar era abrir estradas.
A ampliação da influência dos Estados Unidos sobre o Reino Unido também ocorreu no contexto da Política da Boa Vizinhança, nos anos 1930 e 1940. A iniciativa envolvia diplomacia, aproximação cultural e cooperação econômica e era conduzida pelo presidente Franklin Roosevelt.
O modelo de cidade para carros alcançou ainda o comércio. O shopping center, com ambiente climatizado e amplos estacionamentos, é apontado como uma adaptação desse padrão. Os condomínios-clube, geralmente murados e com áreas de lazer internas, também são associados a referências dos Estados Unidos por se isolarem do movimento das ruas.
Bruno Zorek, historiador com pós-doutorado em andamento sobre os projetos de Robert Moses na América Latina, observa que as comparações de São Paulo com cidades americanas acompanharam uma transformação rápida. Ele cita textos de Florestan Fernandes que passaram, com cinco anos de diferença, de comparações com Manchester para referências a Chicago, Detroit e Nova York.
Para Zorek, essa influência permaneceu especialmente até os anos 1970, quando Nova York passou a ser relacionada à violência e a problemas sociais. A situação só mudou no fim do século 20 e no início do século 21, com iniciativas públicas variadas.
Atualmente, a influência norte-americana continua, mas está mais distribuída. Os pesquisadores apontam referências urbanísticas de diferentes países, como as “cidades esponja” da China e a “cidade de 15 minutos” da França.


