A imagem de Nossa Senhora Aparecida foi integrada a disputas de poder em diferentes momentos da história brasileira, antes de aparecer na atual disputa entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Governantes, parlamentares e grupos religiosos recorreram ao símbolo católico em contextos que vão do Império à política contemporânea.
A relação entre a santa e o poder ganhou uma dimensão institucional no fim de 1929, quando bispos pediram que Nossa Senhora Aparecida fosse reconhecida como padroeira nacional. O Vaticano aprovou a proposta em 1930. A cerimônia pública ocorreu em 31 de maio do ano seguinte, no Rio de Janeiro, então capital do país, com a presença do presidente Getúlio Vargas.
O episódio também aproximou Vargas da hierarquia católica. Depois de assumir o poder em 1930, o governo encontrou na Igreja uma aliada para consolidar o novo regime. A liderança católica, por sua vez, viu na mudança uma oportunidade de recuperar influência política perdida após a separação oficial entre Estado e Igreja, instituída em 1890.
De promessa imperial à aliança com Vargas
A aproximação entre a imagem e autoridades, porém, era anterior à República. Em 1868, a princesa Isabel teria feito uma promessa a Nossa Senhora Aparecida porque não conseguia engravidar. Depois de dar à luz três filhos, presenteou a imagem com uma coroa de 300 gramas de ouro e 40 diamantes, além de um manto de veludo azul.
Até o início do século 20, o padroeiro oficial do Brasil era são Pedro de Alcântara. O título havia sido estabelecido em 1826, a pedido de dom Pedro 1º. A devoção popular a Aparecida cresceu nas décadas seguintes à recuperação de uma estatueta de terracota no rio Paraíba do Sul, em outubro de 1717. A peça, encontrada por três pescadores, estava fragmentada entre corpo e cabeça.
A cerimônia de 1931 expôs a dimensão política da presença de Vargas. O presidente, que não era religioso, ficou sem saber como agir diante da imagem e segurou a barra do manto. O jornalista Rodrigo Alvarez relata que um bispo o orientou: “Senhor presidente, é para beijar!”. Vargas então beijou os pés da padroeira.
Embora tivesse criticado a fé cristã na juventude, Vargas adotou gestos de aproximação com o catolicismo. Em 1907, durante a formatura na Faculdade Livre de Direito de Porto Alegre, afirmou que “a moral cristã é contrária à natureza humana”. Mais tarde, o governo apoiou medidas incorporadas à Constituição de 1934, como o ensino religioso em escolas públicas e a proibição do divórcio.
Crises, ataques e disputas religiosas
A imagem voltou ao centro da política durante a crise que antecedeu a queda de João Goulart. No domingo de Páscoa de 1964, Paschoal Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, esteve em Aparecida e disse a padres que Jango estava perto de deixar o poder. Sacerdotes do santuário, que alertavam contra o que consideravam uma ameaça comunista, celebraram a queda do presidente como uma “vitória da revolução democrática”.
Em maio de 1978, um jovem de 19 anos invadiu a basílica, passou pela proteção e derrubou a estátua. A imagem se espatifou e depois foi restaurada.
No dia 12 de outubro de 1995, um bispo da Igreja Universal do Reino de Deus chutou uma estátua de Aparecida durante uma transmissão televisiva e a insultou. O episódio provocou desgaste para a Universal e para evangélicos em geral.
A disputa sobre o papel da santa continuou no século 21. Em 2007, o deputado Victorio Galli apresentou um projeto para limitar o reconhecimento de Aparecida aos brasileiros católicos apostólicos romanos. A proposta foi arquivada no ano seguinte. Em 2018, Jair Bolsonaro foi associado, por uma notícia falsa, à iniciativa, embora não houvesse evidências de apoio. Depois da vitória eleitoral, Galli tornou-se assessor especial da Presidência.
O rumor reapareceu em torno de Flávio Bolsonaro, que nega a intenção de retirar de Aparecida o título de padroeira e afirma que a acusação não tem “pé nem cabeça”.


