Os programas de governo dos candidatos à Presidência apresentam diferentes formas de tratar o Nordeste. Ronaldo Caiado (PSD) reúne o maior número de medidas específicas, com quatorze propostas, enquanto Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Flávio Bolsonaro (PL) também dedicam capítulos inteiros à região, ao Semiárido ou ao desenvolvimento regional.
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) distribui suas propostas entre um capítulo sobre desenvolvimento regional e outras partes do programa, nas quais o Nordeste aparece associado a políticas nacionais de infraestrutura, conectividade e segurança hídrica. Entre as medidas citadas nos programas estão novos data centers, expansão do 5G, ferrovias, industrialização e ações de valorização da Caatinga.
Diferentes níveis de atenção regional
O programa de Caiado tem três páginas dedicadas ao capítulo “Política para o Nordeste: desenvolvimento, água e oportunidades”. O documento apresenta quatorze propostas, menciona “Nordeste” nove vezes e usa a expressão “desenvolvimento regional” sete vezes. O candidato também afirma ter preparado o Pacto Nordeste 2030, com participação de governadores, prefeitos, setor produtivo e instituições locais.
Augusto Cury reúne nove propostas no capítulo “Brasil Oásis: Revolução no Semiárido”, que abrange o Nordeste e o Norte de Minas Gerais em cinco páginas. O termo “Nordeste” aparece dez vezes, e “desenvolvimento regional”, cinco.
Renan Santos concentra oito propostas em três páginas sob o título “O Nordeste é Solução”. O plano prioriza industrialização e a criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs). A palavra “Nordeste” é usada 11 vezes, sem ocorrência da expressão “desenvolvimento regional”.
Flávio Bolsonaro apresenta sete propostas em quatro páginas, no capítulo “Desenvolvimento regional: reduzir a distância entre as regiões”. O programa registra 11 menções ao Nordeste e uma à expressão “desenvolvimento regional”.
Lula tem seis propostas relacionadas à região, distribuídas por quatro páginas. O nome “Nordeste” aparece três vezes, enquanto “desenvolvimento regional” é citado sete vezes.
Samara Martins (UP) apresenta uma medida diretamente associada à região: a proteção da Caatinga. O documento menciona o Nordeste uma vez e não usa a expressão “desenvolvimento regional”. Pablo Marçal (PRTB) e Romeu Zema (Novo) fazem apenas referências breves ao desenvolvimento regional. Edmilson Costa (PCB) menciona “regiões menos assistidas”.
Zema é o único candidato que aparece nas pesquisas eleitorais e não faz menção ao Nordeste. Em seu programa, “desenvolvimento regional” aparece apenas em conexão com políticas culturais. Rui Costa Pimenta afirmou que o programa do PCO se aplica integralmente à região, sem separá-la como um problema administrativo.
Energia, tecnologia e produção
A instalação de data centers é proposta por Renan Santos, Caiado e Flávio Bolsonaro. Caiado associa os empreendimentos à ampliação de fontes renováveis, à industrialização e à geração de empregos locais. Flávio Bolsonaro relaciona os centros de dados à energia solar e eólica e pretende usar a oferta de energia limpa para transformar o Nordeste em polo tecnológico.
Renan Santos propõe que o Brasil se torne “o maior exportador de inferência computacional do hemisfério ocidental, transformando o Nordeste, em especial, na Arábia Saudita do Brasil”. Lula também defende o fortalecimento da cadeia nacional de data centers, mas apresenta a medida no capítulo dedicado à economia digital, sem vinculá-la diretamente ao Nordeste.
Samara Martins declarou que sua meta é transformar a região em polo de ciência e tecnologia e, simultaneamente, de produção de alimentos. As propostas associadas ao seu programa incluem reforma agrária, prioridade para a agricultura camponesa, ampliação do acesso à educação e frentes emergenciais de trabalho nos primeiros 100 dias de governo.
Avaliação sobre desenvolvimento regional
Para a economista e socióloga Tânia Bacelar, os programas precisam combinar ações específicas para o Nordeste com políticas nacionais que levem em conta as diferenças entre as regiões. Ela defende apoio à transformação da base produtiva do Semiárido, medidas contra a desertificação e recuperação de áreas degradadas.
O cientista político Arthur Leandro, da Universidade Federal de Pernambuco, avalia que a presença do Nordeste nos programas acompanha uma tendência dos últimos pleitos. Para ele, os candidatos competitivos tratam a região como estratégica para o desenvolvimento nacional. Leandro também afirma que a quantidade de páginas ou a existência de um capítulo próprio não basta para determinar a qualidade ou a viabilidade das propostas.
Na análise do professor, devem ser considerados financiamento, execução, coordenação entre União, estados e municípios, além da capacidade de produzir emprego, renda e resultados duradouros para a população local. Pesquisas de intenção de voto dos institutos Quaest e Datafolha indicam vantagem de Lula em todos os estados do Nordeste.
Os programas também diferenciam o tratamento dado às demais regiões. Norte e Amazônia aparecem como áreas em que seria necessário enfrentar desigualdades ou liberar potencial econômico. Sul e Sudeste não têm capítulos próprios, mas são contemplados em propostas nacionais de indústria, infraestrutura, tecnologia, mineração, mobilidade e energia. O Centro-Oeste é associado ao agronegócio, às ferrovias, aos corredores de exportação, à armazenagem, à irrigação e à logística.
Bacelar distingue políticas nacionais com impacto regional, como a ampliação do ensino superior, de políticas explicitamente voltadas a determinadas áreas, como os Fundos Regionais para Norte, Nordeste e Centro-Oeste, definidos pela Constituinte de 1988. Para a especialista, as ações econômicas e setoriais devem considerar a diversidade regional e ser acompanhadas de medidas direcionadas ao Nordeste e ao Norte.


