BRASÍLIA — O plenário do Supremo Tribunal Federal (STF) examina nesta terça-feira (15) um relatório da Polícia Federal sobre a relação entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master. A sessão começa às 10h e deve marcar a primeira manifestação pública de Moraes sobre o caso.
O documento reúne mensagens, encontros e informações sobre contratos firmados entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro. Ao final da sessão, os ministros podem decidir pela abertura de uma investigação contra Moraes ou pela anulação do relatório, como pediu a Procuradoria-Geral da República (PGR).
Mensagens antes da prisão
Mensagens recuperadas pela Polícia Federal em um dos celulares apreendidos de Vorcaro indicam que o ex-banqueiro procurou Moraes dois dias antes de ser preso, em 17 de novembro de 2025. Ele perguntou se deveria deixar o país e se havia possibilidade de a prisão ocorrer na manhã seguinte. Vorcaro se preparava para viajar em um jato particular com destino a Malta.
As mensagens foram trocadas por meio de capturas de tela do bloco de notas enviadas com visualização única pelo WhatsApp. Por isso, as respostas não foram preservadas. Nos dias anteriores, os diálogos registram tentativas de Vorcaro de marcar encontros com o ministro e perguntas sobre as apurações contra ele.
O ex-banqueiro também afirmou que buscava resolver pendências para evitar problemas. As fraudes da instituição financeira já estavam no radar das autoridades naquele período.
Contratos com o escritório
A Polícia Federal afirma que Moraes editou, antes da assinatura, o contrato de R$ 131 milhões entre o escritório de Viviane Barci de Moraes e o Banco Master. Documentos da Receita Federal apontam pagamentos de R$ 80,2 milhões em dois anos.
O escritório confirmou que o ministro fez intervenções na condição de marido da sócia, a pedido do setor de compliance. A justificativa apresentada foi a verificação de possíveis impedimentos legais, como ações sob relatoria de Moraes ou julgamentos no STF de interesse do banco. O escritório afirmou que nada foi identificado.
Em outra mensagem, Vorcaro disse a uma funcionária que o pagamento ao escritório não poderia atrasar e poderia ser feito sem nota fiscal. Ele classificou a quitação como “o pgto [pagamento] mais importante que temos”.
Outro contrato, de R$ 50 milhões, previa o pagamento de R$ 40 milhões por meio da transferência de cotas de um jatinho e de um helicóptero. Os R$ 10 milhões restantes seriam destinados ao reembolso de despesas com os voos. A banca afirmou que o acordo não foi assinado.
As conversas indicam que Vorcaro e um advogado discutiram o momento da transferência dos ativos. Em uma das mensagens, o ex-banqueiro respondeu: “Os ativos são deles já”. Moraes utilizou uma das aeronaves, da Prime Aviation, empresa que teve Vorcaro como sócio.
Encontros e pressão no Banco Central
As mensagens apontam pelo menos seis encontros entre Moraes e Vorcaro. Os primeiros teriam sido articulados por Fábio Faria, ex-ministro das Comunicações do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Em fevereiro de 2024, os dois se encontraram na casa de Faria, a pedido de Moraes. Em julho de 2024, Faria enviou a Vorcaro a mensagem “Careca 19:30”. Em novembro de 2024, o ex-banqueiro informou à filha que estava com o ministro.
Em fevereiro de 2025, um motorista avisou Vorcaro que “o ministro Alexandre chegou”. No mês seguinte, Vorcaro comunicou à então namorada, Martha Graeff, e ao então diretor do Banco Central, Paulo Sérgio, que estava com Moraes. Em abril de 2025, disse que iria encontrar Alexandre perto de casa.
O relatório também registra uma possível pressão sobre Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de fiscalização do Banco Central. O ex-banqueiro é investigado sob suspeita de ter atuado como consultor informal de Vorcaro em troca de dinheiro.
Durante a tentativa de venda de 58% do Banco Master ao Banco Regional de Brasília (BRB), Vorcaro afirmou a Paulo Sérgio que Moraes iria “chamar o Paulo para dar um aperto”. O relatório considera que a referência poderia ser a Paulo Gonet, procurador-geral, porque a operação era analisada pelo Ministério Público Federal. Em outra conversa, Vorcaro pediu a atuação de “Andrei e Paulo”, possível menção a Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal.
Eventos em Londres
As conversas também mostram que Moraes opinou sobre edições de um Fórum Jurídico em Londres organizado com participação de Vorcaro. Segundo as mensagens, o ministro sugeriu vetos a convidados e fez reclamações sobre os eventos.
O primeiro fórum ocorreu em abril de 2024. O segundo, previsto para o final de 2025, foi cancelado.


