Adultos internados por dengue em UTIs da rede pública chegaram em condições mais graves do que os atendidos na rede privada, embora fossem mais jovens. Um em cada cinco precisou de intubação no primeiro dia de terapia intensiva, contra 4 em cada 100 nos hospitais privados. Os dados estão em estudo publicado em agosto no Journal of Critical Care.
A pesquisa foi realizada por profissionais do Einstein Hospital Israelita e do IDOR (Instituto D'Or de Pesquisa e Ensino), com base em internações de adultos entre 2015 e 2024. Os autores levantam a possibilidade de que uma demora maior no acesso à UTI contribua para a diferença, mas o trabalho não calculou o período entre o início dos sintomas e a internação.
“O que o estudo nos permite afirmar é que os pacientes internados nessas unidades eram mais graves do que os admitidos em hospitais privados”, diz o intensivista Luciano Azevedo, pesquisador do Einstein e autor principal do artigo.
Diferenças entre as redes
O registro UTIs Brasileiras reuniu dados de hospitais públicos e privados. Foram 32.016 internações e 2.593 mortes, o equivalente a 8,1%. Na rede pública, houve 3.682 internações e 889 mortes; na privada, 28.334 internações e 1.704 mortes.
A idade mediana era de 50 anos entre os pacientes da rede pública e de 54 na rede privada. Apesar disso, os pacientes da rede pública apresentaram mais sinais de comprometimento de órgãos nas primeiras 24 horas: 22,4% precisaram de medicamentos para manter a pressão arterial, ante 5,3% na rede privada. A hemodiálise foi usada em 4,7% dos casos, contra 1,3%.
O cardiologista Henrique Fonseca, pesquisador do Einstein e coautor do estudo, afirma que pacientes da rede pública podem passar por UBS (Unidade Básica de Saúde) e UPA (Unidade de Pronto Atendimento) antes de chegar ao hospital. Para ele, esse trajeto pode contribuir para uma admissão em estado mais grave. Azevedo acrescenta que a espera por regulação ocorre fora do ambiente de terapia intensiva quando não há vaga disponível.
O Datasus, que reúne informações de 1.610 hospitais ligados ao SUS, registrou 11.241 internações e 2.091 mortes, ou 18,6%. As bases não foram combinadas porque o mesmo paciente pode estar registrado mais de uma vez ou aparecer nas duas fontes.
Mortalidade e sinais de alerta
No registro UTIs Brasileiras, 54,6% dos pacientes que receberam vasopressores no primeiro dia morreram durante a internação. Esses medicamentos são usados quando há choque circulatório, situação em que a circulação não consegue levar sangue suficiente aos órgãos.
A mortalidade também cresceu conforme a idade. Entre menores de 40 anos, foi de 3,5%; na faixa de 41 a 65, de 6,3%; e entre maiores de 65, de 14,4%. No Datasus, os índices foram de 10%, 18% e 30%, respectivamente. Fonseca relaciona o risco maior entre idosos à menor reserva fisiológica e à presença de doenças cardíacas ou pulmonares.
O protocolo do Ministério da Saúde recomenda atenção diferenciada para maiores de 65 anos, gestantes, bebês e pessoas com diabetes, hipertensão e insuficiência renal. Mesmo sem sinais de alarme, esses grupos devem permanecer em observação até a realização dos exames e retornar para avaliação diária.
A infecção é transmitida pela picada da fêmea contaminada do mosquito Aedes aegypti. Em geral, os primeiros sintomas incluem febre alta por dois a sete dias. A etapa de maior risco tende a começar quando a febre diminui, entre o terceiro e o sétimo dia da doença. Dor abdominal intensa e contínua, vômitos persistentes, sangramento de mucosas, tontura ao se levantar, sonolência ou agitação são sinais de alarme. O Ministério da Saúde informa que o choque pode evoluir rapidamente e causar morte em 12 a 24 horas.
Em 2025, o Brasil teve 1.821 mortes por dengue e mais de 1,4 milhão de casos. A vacinação do Instituto Butantan foi aprovada pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) em novembro de 2025 para pessoas de 12 a 59 anos. O imunizante começou a ser aplicado no SUS em janeiro, para pessoas de 15 a 59 anos de três municípios, e depois foi ampliado para profissionais da atenção primária.
A aplicação está suspensa desde junho, enquanto são investigados casos graves temporalmente associados à vacina, entre eles duas mortes. A Qdenga, da farmacêutica Takeda, continua disponível na rede pública para adolescentes de 10 a 14 anos. Nenhuma das duas vacinas é indicada para idosos, grupo de maior risco identificado no estudo.


